A felicidade das coisas simples

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Quinta-feira, 3 de Março de 1977

Acordei com a estranha sensação de que a semana estava a passar depressa demais.

Ainda na terça-feira o passeio até ao Douro me parecia uma lembrança recente, mas já era quinta-feira e comecei a perceber que as melhores horas dos meus dias tinham deixado de ser aquelas em que fazia alguma coisa importante. Eram aquelas em que simplesmente caminhava ao lado da Dila.

Nunca imaginei que a rotina pudesse tornar-se uma forma de felicidade.

Saí de casa um pouco mais cedo, como já era hábito. Não precisava de olhar para o relógio para saber que estava adiantado. Fazia-o de propósito.

Gostava daqueles minutos em que a rua ainda estava meio adormecida e eu podia fingir que esperava apenas pelo trólei.

Na verdade, esperava por ela.

Quando apareceu ao fundo da rua, senti a mesma alegria discreta dos dias anteriores. Já nem me surpreendia. Bastava vê-la aproximar-se para o dia ganhar outra cor.

— Bom dia.

— Bom dia, António.

Parou ao meu lado e olhou para o céu.

— Ainda continua este calor.

— Se não olhasse para o calendário, jurava que já era Primavera.

Ela sorriu.

— Não te queixes. Eu gosto.

— Eu também.

Fez-se um pequeno silêncio.

— Sabes uma coisa? — perguntou.

— O quê?

— Desde terça-feira que, sempre que passo por aqui, me lembro do rio.

Olhei para ela.

— Também eu.

— Engraçado...

— O quê?

— Parece que o passeio ainda não acabou.

Sorri sem responder.

Porque era exactamente isso que eu sentia.

O passeio continuava.

Só que agora acontecia dentro de nós.

O autocarro chegou quase vazio.

Sentámo-nos novamente lado a lado.

Já não havia o nervosismo dos primeiros tempos. Existia outra coisa, mais serena. Como se ambos estivéssemos lentamente a aprender o lugar que ocupávamos na vida um do outro.

Ela apoiou os livros no colo.

— Hoje tens aulas seguidas?

— Não. Tenho dois furos.

Ela abriu muito os olhos.

— Dois?

— Dois.

— Que sorte...

— Depende.

— Depende de quê?

Olhei para ela com um sorriso.

— De ter companhia.

Ela desviou imediatamente o olhar para a janela.

Não respondeu.

Mas vi-lhe um sorriso desenhar-se muito devagar.

Durante alguns minutos nenhum dos dois falou.

As casas sucediam-se para lá do vidro. O sol entrava pela janela, aquecendo-nos os braços. Havia passageiros a conversar em voz baixa, outros ainda lutavam contra o sono.

Era um daqueles momentos em que o silêncio parecia fazer parte da conversa.

Quando o trólei travou junto a uma paragem, ela desequilibrou-se ligeiramente.

Instintivamente estendi a mão.

Não lhe cheguei a tocar.

Ela recompôs-se sozinha.

Olhou para mim.

Sorriu.

— Obrigada... mesmo não tendo sido preciso.

Ri-me.

— Foi por pouco.

— Tens a mania de me querer salvar.

— Tenho?

— Um bocadinho.

— Ainda bem que não precisaste.

Ela ficou a olhar para mim durante alguns segundos.

Depois voltou a sorrir.

— Mas gostei de saber que estavas atento.

Não consegui responder.

Aquelas palavras acompanharam-me até descermos no Porto.

Começámos a caminhar para os liceus.

As ruas estavam cheias de estudantes. Alguns corriam para não chegar atrasados. Outros paravam junto aos cafés antes das aulas.

Nós caminhávamos sem pressa.

Como se aquele pequeno percurso fosse um prolongamento da viagem.

— Tens estudado muito? — perguntei.

Ela fez uma careta.

— O suficiente para os professores dizerem que é pouco.

— Então estás como eu.

Riu-se.

— Não acredito.

— Porque não?

— Porque tu estudas mais do que eu.

— Isso é má fama.

— É fama justa.

Continuámos a andar.

Quando chegámos ao cruzamento onde os nossos caminhos se separavam, nenhum dos dois acelerou o passo.

Pelo contrário.

Sem combinarmos, começámos ambos a andar um pouco mais devagar.

Como se quiséssemos roubar mais alguns segundos ao relógio.

— Então... até logo.

— Até logo.

Ela deu dois passos.

Depois voltou-se.

— Aproveita bem esses furos.

Sorri.

— Vou tentar.

Mas já sabia que ela estava enganada.

Não ia aproveitá-los para descansar.

Nem para estudar.

Ia aproveitá-los para estar perto dela.

As primeiras aulas passaram depressa.

Quando chegou o primeiro furo, encontrei-a quase por acaso no pátio.

— Afinal sobreviveste às aulas.

— Mal.

— Eu também.

Sentámo-nos num banco, à sombra de uma árvore.

À nossa volta cruzavam-se dezenas de alunos, mas parecia que nenhum deles existia verdadeiramente.

Falámos dos professores.

Dos testes.

Dos livros.

Dos planos para o fim-de-semana.

E, pouco a pouco, das nossas famílias.

— Quantas irmãs tens mesmo? — perguntou ela.

— Três.

— Nunca me lembro.

— E tu?

— Já sabes...

— Sei. Mas gosto de te ouvir contar.

Ela olhou para mim, divertida.

— Que desculpa tão má.

— Resultou.

Abanou a cabeça.

— Um dia ainda vais convencer-me.

— Espero que sim.

Ela ficou a brincar com uma folha caída no banco.

— Sabes...

— Diz.

— Gosto destes bocadinhos.

Olhei para ela.

— Eu também.

— Aqui ninguém nos conhece.

— Isso faz diferença?

Pensou um instante.

— Talvez faça.

Não perguntei porquê.

Percebi que havia perguntas que era melhor deixar amadurecer.

O segundo furo passou ainda mais depressa.

Demos uma volta pelas ruas próximas do liceu, parámos diante da montra de uma livraria, folheámos alguns livros sem intenção de comprar nenhum.

Ela pegou num livro de poemas.

— Gostas de poesia?

— Gosto.

— Eu às vezes não percebo metade.

— Talvez não seja preciso perceber tudo.

— Então?

— Basta sentir.

Ela ficou a olhar para mim.

— Tu complicas sempre as respostas.

— Ou simplifico.

Riu-se.

— Ainda estou para descobrir.

Quando o toque anunciou o regresso às aulas, senti uma pequena desilusão.

Nunca o intervalo me parecera tão curto.

Depois das aulas viemos para  para a paragem no Bonfim.

A viagem de regresso decorreu com a tranquilidade dos dias felizes.

Já não era preciso procurar assuntos.

As conversas apareciam naturalmente.

Às vezes bastava comentarmos uma pessoa que passava na rua.

Outras vezes inventávamos histórias sobre desconhecidos.

E havia momentos em que apenas observávamos a paisagem.

Sem desconforto.

Sem pressa.

Quando chegámos a S. Pedro, despedimo-nos.

— Até amanhã, António.

— Até amanhã, Dila.

Vi-a afastar-se lentamente.

Só quando desapareceu ao fundo da rua percebi que sorria sozinho.

Passei a tarde no DIFI.

Era preciso escrever um historial do grupo para enviar ao FAOJ e ajudar o Mazola a procurar documentos antigos no arquivo.

O trabalho ocupou-me as mãos.

Mas não a cabeça.

Enquanto folheava papéis amarelados, dei por mim a recordar uma frase que ela dissera quase sem pensar.

"Gosto destes bocadinhos."

Talvez fosse apenas uma observação inocente.

Talvez não.

Naquela semana comecei a descobrir que a felicidade raramente fazia barulho.

Não precisava de grandes acontecimentos.

Nem de promessas.

Às vezes escondia-se apenas numa paragem de autocarro.

Num banco de jardim.

Numa montra de livraria.

Ou no simples facto de duas pessoas caminharem lado a lado, sem darem por isso, exactamente ao mesmo ritmo.

E comecei a recear uma coisa que até então nunca me passara pela cabeça.

Que um dia aqueles pequenos momentos pudessem acabar.

Porque, sem eles, a cidade continuaria a ser a mesma.

Mas eu já não seria.


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