O princípio das pequenas esperas

← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →

Quarta-feira, 2 de Março de 1977

Hoje acordei antes do despertador tocar.

Durante alguns segundos fiquei deitado, imóvel, a olhar para o tecto do quarto. Não estava propriamente bem desperto, mas também já não dormia. Havia qualquer coisa que me puxava para fora da cama com uma facilidade pouco habitual.

Só depois percebi o que era.

Ia voltar a vê-la.

Sorri para mim próprio. Era ridículo. Ainda no dia anterior tínhamos passado horas juntos, caminhado até ao Douro, conversado como nunca até então, e, mesmo assim, sentia outra vez aquela impaciência de quem espera por um acontecimento raro.

Levantei-me, tomei o pequeno-almoço quase sem reparar no que comia e saí de casa um pouco mais cedo. O caminho até à paragem começava a transformar-se numa espécie de preparação para o melhor momento do dia.

Quando lá cheguei, ela ainda não tinha aparecido.

Olhei para o relógio.

Estava exactamente dentro da hora.

Mesmo assim, dei alguns passos para a frente e para trás, fingindo observar o movimento da rua.

Ao longe, surgiu finalmente aquela figura que eu já aprendera a reconhecer antes de distinguir o rosto. Caminhava com os livros apertados contra o peito e o cabelo, solto, acompanhava-lhe o ritmo dos passos.

Quando me viu, levantou ligeiramente a mão.

— Bom dia, António.

— Bom dia.

Ficou a olhar para mim durante um instante.

— Estás com um ar diferente.

Ri-me.

— Diferente como?

— Não sei... parece que dormiste bem.

— Talvez tenha dormido.

Ela estreitou os olhos, desconfiada.

— Ou então ainda estás a pensar no passeio de ontem.

Não consegui esconder o sorriso.

— Também.

Ela baixou os olhos por um instante.

— Eu também gostei.

Foram apenas quatro palavras.

Mas acompanharam-me o resto do dia.

O trólei chegou pouco depois.

Desta vez vinha quase cheio.

Entrámos e percorremos o corredor à procura de dois lugares que não existiam.

Ela olhou para mim e fez uma careta divertida.

— Hoje não tivemos sorte.

— Parece que não.

Ficámos de pé, próximos um do outro, agarrados ao mesmo varão metálico.

Sempre que o trólei travava, os passageiros inclinavam-se uns sobre os outros. Duas ou três vezes o braço dela roçou no meu.

Nenhum de nós comentou.

Mas também nenhum se afastou.

Era curioso como um simples toque acidental conseguia provocar mais inquietação do que qualquer conversa.

Durante alguns minutos olhámos pela janela.

A paisagem passava lentamente.

Casas.

Muros.

Campos.

Pessoas que caminhavam para mais um dia igual aos outros.

— Sabes... — disse ela de repente.

— Hum?

— Ontem, quando cheguei a casa, a minha irmã perguntou-me porque vinha tão contente.

Olhei para ela.

— E o que lhe disseste?

Sorriu.

— Que tinha ido passear.

— Só isso?

— Achas que devia ter dito mais alguma coisa?

Sentia que devia responder.

Mas não sabia como.

Acabei por encolher os ombros.

— Talvez não.

Ela olhou de novo pela janela.

— Também achei.

Ficámos em silêncio.

Um silêncio diferente dos outros.

Parecia que ambos tínhamos percebido que havia perguntas para as quais ainda não existiam respostas.

Quando chegámos ao Porto, começámos a caminhar na direcção dos liceus.

A cidade parecia mais viva do que no dia anterior. O cheiro do café misturava-se com o perfume doce que escapava de uma pastelaria. Os tróleis cruzavam lentamente as ruas, obrigando os peões a esperar alguns segundos antes de atravessar.

Sem darmos por isso, começámos a adaptar o nosso passo um ao outro.

Já não era preciso esperar.

Nem acelerar.

Caminhávamos naturalmente ao mesmo ritmo.

— Hoje tens muitos furos? — perguntou ela.

— Não.

— Que pena.

Olhei para ela.

— Porquê?

Encolheu os ombros.

— Porque ontem soube bem fugir um bocadinho à rotina.

Sorri.

— A mim também.

Chegámos demasiado depressa ao liceu dela.

Começava a perceber que aquele percurso tinha um defeito.

Acabava sempre cedo de mais.

Ela parou junto ao portão.

— Então... até logo.

— Até logo, Dila.

Foi a primeira vez que lhe chamei apenas "Dila".

Assim.

Naturalmente.

Ela olhou para mim com um sorriso quase imperceptível.

Não disse nada.

Entrou no liceu.

E eu fiquei durante alguns segundos a vê-la desaparecer entre os outros alunos.

Só depois me lembrei de seguir caminho.

As aulas passaram sem deixarem grande memória.

Por mais que tentasse concentrar-me, havia momentos em que me surpreendia a olhar pela janela, convencido de que o tempo tinha decidido andar mais devagar.

Quando finalmente chegou a hora de sair, fui esperá-la ao sítio do costume.

Mal me viu, sorriu.

Aquele sorriso começava a tornar-se uma espécie de recompensa pelo resto do dia.

— Já cá estás.

— Sabes que sim.

— Nunca me deixas esperar.

Ri-me.

— Acho que sou eu quem passa a vida à espera.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça.

— À espera de quê?

Olhei para ela.

Por um instante tive vontade de responder:

"À espera de ti."

Mas limitei-me a dizer:

— Do trólei.

Ela fez uma expressão divertida.

— Que resposta mais aborrecida.

— Era a única segura.

— Cobarde.

Disse-o a rir.

Mas aquela palavra ficou a ecoar dentro de mim durante alguns segundos.

Talvez tivesse razão.

Regressámos juntos.

A viagem decorreu tranquila, entre conversas interrompidas e pequenos silêncios.

Ao chegarmos a S. Pedro despedimo-nos como sempre.

Mas, desta vez, ao vê-la afastar-se, dei por mim a pensar que começava a existir qualquer coisa estranha naquelas despedidas.

Já não eram um fim.

Eram apenas o intervalo até à manhã seguinte.

Durante a tarde mergulhei no trabalho do DIFI e, mais tarde, segui para o Porto com um colega. Visitámos uma exposição do Clube Lunar, tratámos de fotocópias e acabámos numa reunião do FAOJ para pedir apoio para o nosso grupo.

Ouviam-se números, projectos, ideias e planos para o futuro.

Participei em tudo.

Falei quando foi preciso.

Mas, por momentos, a minha atenção fugia para bem longe daquela sala.

Lembrava-me dela encostada ao varão do autocarro.

Do sorriso quando confessou que a irmã lhe perguntara porque vinha tão contente.

E daquela única palavra que me atirara, entre brincadeira e verdade.

Cobarde.

Quando já era noite, regressámos por casa do Mazola antes de cada um seguir o seu caminho.

Ainda passei pela sede do PCP com o meu pai.

O dia terminava cheio de acontecimentos.

Mas nenhum deles tinha o peso daqueles breves minutos da manhã.

Começava a perceber uma coisa curiosa.

Os dias deixavam de medir-se pelo número de horas.

Mediam-se pelo tempo que passava ao lado dela.

E, quando esse tempo terminava, tudo o resto parecia apenas uma longa espera até ao dia seguinte.


← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →


Comentários