Onde o rio aprendeu o teu nome

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Terça-feira, 1 de Março de 1977

Esta manhã tinha qualquer coisa de enganador. O calendário insistia que era Março, mas o ar morno, a luz limpa e o céu sem nuvens pareciam ter saltado directamente para um dia de Junho.

Saí de casa mais cedo do que era necessário. Não porque tivesse pressa de apanhar o autocarro. A verdade era outra, embora ainda não tivesse coragem de a confessar nem a mim próprio.

Queria chegar antes dela.

A paragem ainda estava meio adormecida. Uma ou duas pessoas esperavam em silêncio. Um homem folheava o jornal. Uma mulher segurava um saco de compras vazio. Encostei-me ao poste da paragem, fingindo desinteresse, enquanto os meus olhos percorriam repetidamente a rua por onde sabia que ela havia de aparecer.

Era sempre por ali.

E, sem dar por isso, comecei a conhecê-la antes mesmo de a ver.

Primeiro surgia uma figura ao longe, ainda indefinida. Depois reconhecia-lhe a maneira de caminhar, ligeiramente apressada mas sem perder a elegância natural. Trazia os livros apertados contra o peito, como se fossem parte dela. Só depois lhe distinguia o rosto.

Quando finalmente levantou os olhos e me viu, sorriu.

Foi um sorriso pequeno.

Mas bastou para fazer desaparecer toda a espera.

— Bom dia, António.

— Bom dia... Ainda pensei que hoje te tivesses esquecido de mim.

Ela inclinou a cabeça, divertida.

— Esquecer-me? Tu é que chegas sempre cedo demais.

— É defeito.

— Ou qualidade?

Encolhi os ombros.

— Depende de quem espera.

Ela não respondeu logo. Limitou-se a sorrir outra vez, enquanto uma madeixa de cabelo lhe caía sobre a testa.

O trólei apareceu ao fundo da estrada com o habitual ronronar do motor eléctrico. Entrámos juntamente com os outros passageiros. Por sorte, havia dois lugares vagos, lado a lado, junto à janela.

— Hoje tivemos sorte — disse eu.

— Ainda bem. Gosto mais de ir sentada.

— Eu também.

Quase acrescentei "...ao teu lado."

Mas calei-me a tempo.

O veículo arrancou aos solavancos. Durante alguns minutos limitámo-nos a observar a paisagem que deslizava lentamente para trás.

— Dormiste bem? — perguntei.

Ela fez uma expressão indecisa.

— Mais ou menos. A minha irmã esteve a estudar até tarde e não me deixou dormir grande coisa.

— Então hoje vais andar cheia de sono.

— Talvez... se tu não me fores entretendo.

Sorri.

— Isso parece uma responsabilidade muito grande.

— Não te preocupes. Não és assim tão aborrecido.

— Ainda bem...

Ela riu-se.

Gostava daquele riso. Não era alto nem espalhafatoso. Parecia nascer devagar, como quem se esquece de o prender.

Quando o autocarro travou mais bruscamente numa curva, os nossos ombros tocaram-se por um instante.

Foi um contacto insignificante.

Tão breve que qualquer outra pessoa o teria esquecido imediatamente.

Eu não.

Afastei-me um pouco, sem saber se devia pedir desculpa.

Ela nem pareceu reparar.

Ou talvez tivesse reparado e fingisse que não.

Durante o resto da viagem continuámos a conversar sobre coisas sem importância. Um teste que se aproximava. Um professor particularmente rabugento. Um colega que nunca trazia os trabalhos feitos.

Era curioso.

Falávamos sempre de assuntos banais.

Mas nunca me pareciam banais quando era ela quem os dizia.

Ao chegarmos ao Porto, descemos juntos.

A cidade já despertara completamente. Os autocarros roncavam nas ruas entre o trânsito. Algumas lojas levantavam as portas. Das pastelarias saía o cheiro quente do pão acabado de cozer, misturado com o aroma intenso do café.

Gostava daquele caminho entre a paragem e os liceus.

Não porque fosse bonito.

Mas porque ainda era nosso.

Sabíamos exactamente quanto tempo demorávamos. Onde o passeio se estreitava. Onde tínhamos de atravessar a rua. Onde costumavam parar os tróleis.

Pequenas rotinas que, sem sabermos, iam construindo uma intimidade discreta.

Quando chegámos ao portão do liceu dela, ficou por instantes parada.

— Então... até logo.

— Até logo.

Ela entrou.

Só quando desapareceu no meio das outras alunas é que me lembrei de olhar para o relógio.

Ainda tinha tempo.

Muito tempo.

Nesse dia havia um exercício.

Pela primeira vez decidi faltar.

Não foi uma decisão pensada.

Foi apenas uma consequência.

Passeei sem destino até encontrar um pequeno jardim. Sentei-me num banco aquecido pelo sol e deixei os minutos correrem devagar.

Pensava nela.

Na viagem.

Na conversa.

No modo como sorrira quando lhe disse que chegava cedo demais.

Era estranho.

Quanto mais tempo passava com a Dila, menos conseguia ocupar a cabeça com qualquer outra coisa.

Quando chegou a hora, fui esperá-la.

Assim que me viu aproximar, abriu um sorriso.

— Então? Também tiveste furo?

Sorri.

— Digamos que arranjei um.

Ela franziu o sobrolho.

— Fizeste gazeta?

— Pela primeira vez.

— Tu?

— Eu.

Riu-se.

— Nunca pensei.

— Há sempre uma primeira vez.

Ficámos alguns segundos em silêncio.

Depois perguntei, quase sem pensar:

— Apetece-te dar um passeio?

Ela olhou para mim.

— Onde?

Olhei para a rua, depois para o céu luminoso.

— Não sei... talvez até ao Douro.

Ela permaneceu calada durante um instante.

— É um bocadinho longe...

— Podemos ir devagar.

Os seus olhos voltaram a encontrar os meus.

— Então vamos.

Descemos lentamente pelas ruas da cidade.

Sem pressas.

Sem destino para além do rio.

Pelo caminho falámos de tudo e de nada.

Dos professores.

Das disciplinas de que gostávamos.

Dos livros que tínhamos lido.

Dos filmes que queríamos ver.

Havia momentos em que as palavras surgiam umas atrás das outras.

Noutros, caminhávamos em silêncio.

Mas nunca era um silêncio incómodo.

Era como se ambos soubéssemos que não era preciso preenchê-lo.

O Porto parecia diferente visto ao lado dela.

As ruas tornavam-se mais luminosas.

As fachadas antigas ganhavam uma beleza que nunca antes tinha reparado.

Até o som distante dos eléctricos parecia fazer parte daquela manhã.

Quando finalmente o rio surgiu diante de nós, parámos quase ao mesmo tempo.

O Douro deslizava lentamente, espelhando o céu azul.

Algumas gaivotas riscavam a água.

Um barco seguia vagarosamente corrente acima.

Apoiada no muro, ela ficou a olhar o rio durante largos segundos.

O vento levantou-lhe o cabelo.

Por um instante tive vontade de afastar aquela madeixa do seu rosto.

A mão chegou a mover-se.

Mas ficou a meio caminho.

Guardei-a no bolso.

Ela continuava a olhar a água.

— Gosto daqui — disse baixinho.

— Eu também.

— Faz-me bem olhar para o rio.

— Porquê?

Pensou um pouco antes de responder.

— Porque parece que ele leva tudo o que pesa cá dentro.

Olhei para a corrente.

— E deixa o quê?

Ela sorriu.

— Não sei...

Depois virou-se para mim.

— Talvez espaço para outras coisas.

Não respondi.

Porque, naquele instante, tive a impressão de que esse espaço já estava lentamente a ser ocupado.

Por ela.

Continuámos ali durante algum tempo, sem necessidade de dizer mais nada.

Foi um daqueles momentos que não pedem fotografias.

Porque ficam gravados noutro lugar.

Quando regressámos, já não fazia sentido voltar às aulas.

Passámos apenas pelo liceu para cumprir a rotina e, ao fim da manhã, esperei novamente por ela para fazermos juntos a viagem de regresso.

No trólei, a conversa era mais tranquila.

Talvez estivéssemos ambos cansados.

Ou talvez ainda caminhássemos, em pensamento, ao longo das margens do Douro.

Ao despedir-se na paragem, ela disse apenas:

— Gostei do passeio.

Olhei para ela.

— Eu também.

Sorriu uma última vez antes de seguir rua acima.

Fiquei a vê-la afastar-se até desaparecer na esquina.

Só então caminhei para casa.

À tarde ainda fui ao DIFI. Trabalhei durante algum tempo e, mais tarde, segui para a Academia. Cumpri todas as obrigações do costume, mas tinha a estranha sensação de que o dia já terminara muito antes, junto ao rio.

Nessa noite, enquanto a televisão debitava imagens que mal via, dei por mim a recordar um instante aparentemente insignificante.

O momento em que quase lhe toquei no cabelo.

Nunca cheguei a fazê-lo.

Mas descobri que, às vezes, há gestos que permanecem connosco precisamente porque ficaram por acontecer.


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