Resenha da Semana - 14 a 20 de Março de 1977

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Acontecimentos relevantes desta semana

A semana abriu-se com o compasso sagrado de um reencontro no banco do trólei, onde o tempo parecia abrandar a sua marcha para que duas vidas se pudessem escutar.

Ao receber a notícia da eleição de António no DIFI, o olhar doce e desarmante da Dila trouxe uma validação sincera que desarmou o peito do jovem. Ela via-o e sabia que o seu destino se moldava pelo amor e pela verdade com que se entregava às suas acções.

Mais tarde, no recreio do liceu, bastou a António contemplá-la ao longe, no gesto eterno de afastar uma madeixa de cabelo da cara, para experimentar uma adoração secreta que não carecia de ser vista para preencher o mundo.

Sentados no banco da Cordoaria, sob os ramos ainda despidos que guardavam a promessa da Primavera em rebentos quase invisíveis, as perguntas sobre os medos mais profundos, as viagens sonhadas e os meses preferidos começaram, folha a folha, a desenhar o mapa sagrado dos seus corações, selando a certeza de que a saudade dos fins-de-semana compridos já não era uma solidão solitária.

Na véspera de António completar dezassete anos, o gesto da Dila ao oferecer o seu livro de leitura pareceu-lhe um pacto de profunda confiança, pois os livros guardam as marcas e a alma de quem os folheia.

Um "amanhã" misterioso ficou suspenso no ar, um segredo trancado no brilho malicioso dos olhos dela e num terno embaraço que fazia o jovem desejar que a viagem não tivesse fim.

Quando o dia dos dezassete anos finalmente despertou com o beijo matinal da mãe, a verdadeira magia aguardava, silenciosa, sobre a mesa da sala.

Dois postais enviados pela Dila revelavam-se ao olhar de António. Não eram necessárias declarações inflamadas, a delicadeza daquelas letras e a memória da véspera, em que ela se demorara diante do expositor da papelaria escolhendo o presente sem que ele suspeitasse, falavam por si.

Um postal pode nascer do dever, mas dois nascem da vontade pura de se fazer presente na vida de quem se ama, oferecendo a António a certeza palpável de que habitava um lugar único no pensamento da sua musa.

O idílio, contudo, foi abruptamente confrontado com a gravidade do mundo exterior.

A revelação inesperada do Manel — uma confissão assustada de casamento e paternidade aos dezasseis anos — caiu sobre os passos dos jovens perto do Bonfim como uma sombra cinzenta, despertando o medo do porvir e a angústia dos sonhos colhidos antes do tempo.

Foi nesse instante de sobressalto que a imensa sensibilidade da Dila se revelou por inteiro. Sem julgamentos ou conclusões apressadas, ela sofreu pelo medo calado da rapariga sem nome, sentindo na pele o peso de uma infância interrompida.

Pela primeira vez, a imensidão da vida adulta assustou-os, e a pergunta que ela lançou a António no trólei, sobre se era possível amar e saber esperar, ecoou como um hino e uma promessa velada entre ambos.

A expectativa estendeu-se até ao momento em que a tormenta se desfez e o Manel confessou o novelo da sua mentira inocente, permitindo a António reflectir sobre a sua própria metamorfose.

Isolado no silêncio do seu quarto, o jovem compreendeu que amar a Dila se transformara também no desejo absoluto de a proteger do ruído, dos boatos e dos monstros que os outros pudessem criar.

O futuro já não era um abismo temível, mas um caminho a ser desvendado a dois.

Ao cair da noite de domingo, a certeza de que a veria na manhã seguinte, na paragem do costume, bastou para pacificar o peito de António, sabendo que a Primavera continuaria a florir, devagar e ternamente, nos silêncios partilhados que agora os uniam.


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