Prólogo — Abril de 1977

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O tempo de crescer

Há um momento na adolescência em que o mundo deixa de caber apenas dentro de uma única pessoa.

Não acontece de um dia para o outro. Não há uma data, um acontecimento ou uma decisão que marque essa mudança. É um crescimento silencioso, quase imperceptível, que transforma a forma como olhamos para nós próprios e para tudo o que nos rodeia.

Abril de 1977 é esse momento na vida de António.

Aos dezassete anos, continua profundamente apaixonado pela Dila. O sentimento que nasceu dois anos antes permanece intacto, tão intenso como nos primeiros dias. Entre eles existe agora uma serenidade conquistada depois das turbulências do final de Março. O amor já não precisa de ser constantemente provado. Basta-lhe existir.

Mas, enquanto a relação encontra esse delicado equilíbrio, António começa a mudar.

Sem o perceber, o seu olhar afasta-se do pequeno universo onde viveu durante tanto tempo. Os estudos ganham um significado diferente. A biblioteca deixa de ser apenas um lugar para preparar testes e transforma-se num espaço de descoberta. O DIFI exige responsabilidade, organização e capacidade de liderança. O karaté deixa de ser apenas um desporto para se tornar uma escola de disciplina e domínio de si próprio.

Pouco a pouco, o rapaz começa a sentir que o futuro já não é uma palavra distante. Pela primeira vez, pressente que as escolhas feitas no presente terão consequências na pessoa em que um dia se tornará.

É também um tempo de novas observações.

António começa a reparar melhor nas pessoas, nas suas diferenças, nos seus modos de estar e de enfrentar a vida. Descobre que o mundo é mais vasto do que imaginava e que cada encontro, por mais breve que seja, pode ensinar alguma coisa sobre os outros e sobre si mesmo.

Nada disto diminui o amor que sente pela Dila.

Pelo contrário.

Esse amor acompanha-o como uma presença tranquila, integrada naturalmente nos seus dias, enquanto o resto da vida vai reclamando, pouco a pouco, o seu espaço.

Abril é, por isso, um mês de maturação.

Não de grandes acontecimentos, mas de pequenas transformações invisíveis.

É o tempo em que a adolescência começa lentamente a abrir caminho à juventude. Um tempo em que António ainda desconhece o alcance das mudanças que estão a acontecer dentro de si, mas que, anos mais tarde, reconhecerá como um dos períodos mais decisivos da sua formação.

Há meses que mudam o rumo de uma vida através de um único acontecimento.

Abril não é um desses meses.

Abril muda uma vida porque muda, silenciosamente, a forma de olhar o mundo.


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