Prólogo - Maio de 1977


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O Tempo dos Silêncios

Há alturas da vida em que tudo parece permanecer igual.

Continuamos a levantar-nos à mesma hora. Seguimos os mesmos caminhos. Encontramos os mesmos rostos. Rimos das mesmas brincadeiras. À primeira vista, nada mudou.

É talvez por isso que custa tanto reconhecer o momento em que as coisas começam verdadeiramente a mudar.

Raramente existe um dia preciso.

Não há um instante que possamos apontar e dizer: foi aqui.

As mudanças importantes chegam devagar. Instalam-se quase sem serem notadas. Primeiro alteram um gesto. Depois um silêncio. Mais tarde, um olhar que demora menos tempo do que antes. Pequenos sinais que, isoladamente, parecem não significar nada. Juntos, acabam por transformar tudo.

A juventude conhece mal esta linguagem.

Está habituada a acreditar nas certezas. A pensar que aquilo que hoje existe continuará naturalmente amanhã. Não desconfia de que até as amizades mais fortes e os afectos mais profundos precisam de ser cuidados todos os dias.

António entra agora nesse tempo.

Ainda acredita que basta sentir para ser compreendido.

Ainda pensa que o silêncio protege aquilo que as palavras poderiam estragar.

Ainda não descobriu que, por vezes, é precisamente o silêncio que levanta os muros mais difíceis de derrubar.

O que se segue não é o relato de uma ruptura.

É o lento desencontro entre dois adolescentes que, continuando a gostar um do outro, deixam de encontrar o caminho para se entenderem.

Como acontece tantas vezes na vida, nenhum deles deseja verdadeiramente perder o outro.

Mas, sem o saberem, começam ambos a caminhar em direcções diferentes.

E há distâncias que não se medem em passos.

Medem-se nas palavras que ficaram por dizer.


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