A coragem frágil das horas incertas

 

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Domingo, 11 de Setembro de 1977

Às seis horas da manhã o Manel veio acordar-me. Logo em seguida apareceu o Cristóvão e depois o Victor. Ainda era noite cerrada quando pusemos pés ao caminho numa corrida pelos carreiros pedregosos da serra. Uma hora depois regressávamos, mais do que cansados. Quase sem tempo para recuperar, uma dor assolou-me o estômago. Depois vesti-me e fui esperar a camionete para o projectado passeio à Gafanha da Boa Hora. Às oito e meia, na companhia da Lina, parti.

Durante a viagem pouco ou nada me diverti. Talvez ainda trouxesse no corpo o cansaço da caminhada, talvez fosse apenas aquele meu modo de observar as coisas antes de lhes encontrar algum interesse. Quando chegámos, a primeira impressão que tive foi pouco animadora. Acolheu-nos a falta de civilização e uma dúzia de corações honestos. Num rápido volver de olhos, a região pareceu-me desoladora.

Tivemos um curto convívio com os visitados e depois empreendemos uma marcha de mil e quinhentos metros até ao local do piquenique. Quando finalmente chegou a hora do almoço, foi recebida com ovação. Depois houve um curto descanso e continuámos com as «brincadeiras».

A meio da tarde assisti ao acto de oração, que achei demasiado funesto. Logo a seguir houve a missa e foi então que me aconteceu uma coisa que, apesar de simples, me deixou bastante nervoso. Fui "empurrado" para ler um capítulo da vida de Moisés. Segundo os ouvintes, saí-me bem. Cá para mim, porém, tremia que nem varas verdes. Talvez ninguém tivesse percebido o que me ia por dentro, e ainda bem. A partida sucedeu à missa.

A viagem de regresso foi mais animada para mim, mas não para a Lina, que se sentiu maldisposta e nem os meus beijos remediaram a situação. Quando chegámos, levei-a a casa e falei ainda com a mãe dela. Quando me vim embora, o Victor acompanhou-me até casa e eu jantei.

Foi um domingo longo, começado ainda de noite e terminado já depois de muitas horas fora de casa. E talvez tenha sido também um daqueles dias em que começo a perceber que há coisas que me obrigam a sair do meu lugar habitual. Desta vez foi apenas uma leitura na missa, diante de outras pessoas, mas senti o peso daquele momento. Não estava habituado a estar ali, exposto aos olhos dos outros, e descobri que até uma coisa aparentemente pequena pode exigir de mim mais coragem do que imaginava.


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