De volta à rotina

 

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Segunda-feira, 12 de Setembro de 1977

Depois do dia intenso que tinha vivido na véspera, o despertar de segunda-feira aconteceu muito mais tarde. O meu pai tinha chegado de Lisboa às cinco da madrugada e, naturalmente, não se levantou logo. Ficou a dormir até às onze horas. Eu só acordei perto do meio-dia, precisamente a tempo de me levantar para almoçar. Só depois de comer é que me vesti, como se a manhã tivesse simplesmente desaparecido enquanto eu dormia.

Talvez fosse também uma consequência do cansaço acumulado. O dia anterior tinha começado ainda de madrugada, com o Manel a acordar-me às seis da manhã, seguido da caminhada pelo monte, da viagem até à Gafanha da Boa Hora, de toda a actividade do passeio e, finalmente, do regresso. Tinha sido um dia comprido. Agora o corpo parecia querer recuperar aquilo que lhe faltara em horas de sono.

A tarde começou sem pressas. Fiquei em casa a ler livros de banda desenhada, deixando passar o tempo entre histórias e desenhos. Não tinha nenhuma obrigação imediata e também não sentia grande vontade de procurar uma ocupação mais exigente. Depois do movimento dos últimos dias, aquele sossego até me soube bem.

Perto das seis horas fui com o Manel à biblioteca. Estivemos algum tempo por lá e, depois, quando chegou o momento de regressar, ocorreu-me esperar pela Lina na paragem.

Fiquei à espera.

Quando ela chegou, fomos levá-la a casa. Depois fiquei com ela, fazendo-lhe companhia até às oito horas. Foram duas horas passadas assim, juntos, sem que o dia precisasse de mais nada para ganhar outro significado. Depois de tudo o que tinha acontecido na véspera, aquela proximidade com ela tinha para mim uma importância especial. Não era preciso que acontecesse alguma coisa extraordinária. Bastava estar ali.

Às oito horas vim embora.

Regressei a casa e o resto da noite foi muito mais simples. Depois do jantar sentei-me a ver televisão. O dia, que tinha começado quase ao meio-dia, acabava sem acontecimentos dignos de grande nota. Ainda assim, não me parecia vazio.

Talvez porque a presença da Lina tivesse ocupado o lugar que outras coisas poderiam ter preenchido.

Começava a perceber que os meus dias já não eram avaliados apenas pelo que neles acontecia. Havia encontros que, pela sua simples existência, permaneciam comigo muito depois de terem terminado. A tarde tinha sido tranquila, quase banal, mas as duas horas junto dela ficariam certamente mais tempo na minha memória do que muitas outras coisas que eu pudesse ter feito nesse dia.

E assim terminou a segunda-feira, sem grandes aventuras, mas com aquela sensação difícil de explicar que ficava sempre que me separava da Lina.


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