Aventura musical na casa do padre

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Terça-feira, 13 de Setembro de 1977

Hoje, ainda mal tinha começado o dia, quando o Manel apareceu em minha casa para me acordar. A visita não podia ter sido mais directa. Levantei-me, tomei o pequeno almoço e pouco depois saímos juntos.

A nossa primeira intenção era irmos a casa do Cristóvão. Fomos até lá, mas não estava. Perante a ausência dele, acabámos por passar por casa do padre. Entre nós, chamávamos-lhe Allah, nome que provavelmente só nós entendíamos e que fazia parte das nossas brincadeiras daquele tempo.

Entrámos.

Foi então que descobrimos o órgão.

Não demorámos muito a aproveitar a oportunidade. Apoderámo-nos do instrumento e começámos a tocar músicas da igreja. Durante toda a manhã, até à uma hora, ficámos ali entretidos com aquela descoberta. O órgão, que normalmente estaria associado a cerimónias, silêncio e solenidade, transformou-se para nós num objecto de diversão. Tocávamos, experimentávamos e voltávamos a tocar, provavelmente sem grande preocupação com a qualidade do que estávamos a produzir.

Quando chegou a hora de sair, fomos embora.

Depois do almoço, porém, a vontade de voltar ainda não tinha desaparecido. Regressámos à casa do padre com o mesmo propósito. Desta vez, encontrámos a sala fechada. Aquilo irritou-nos. Não queríamos simplesmente aceitar que a porta fechada pusesse fim à nossa aventura.

A irritação fez-nos agir.

Voltámos para minha casa e, mais tarde, regressámos novamente à casa do padre. Conseguimos entrar e retomámos aquilo que tínhamos deixado a meio. Continuámos a tocar durante mais algum tempo, até que finalmente desistimos.

Não sei se naquele dia tínhamos consciência de que estávamos a fazer uma coisa que não devíamos. Éramos dois rapazes com vontade de experimentar, e a presença daquele órgão dentro daquela casa parecia-nos uma tentação demasiado grande para ser ignorada. A aventura tinha começado quase por acaso e acabou por ocupar uma boa parte do dia.

Às seis e meia já estava pronto para ir para a Academia. O Manel acompanhou-me até à paragem. Foi então que encontrei a Lina.

Fiquei com ela a conversar durante algum tempo. Depois da conversa veio um beijo e, por momentos, pareceu que a despedida se tornava mais difícil. Acabámos por nos separar e segui o meu caminho.

Na Academia tive um treino puxado, mas bom. Houve alguns combates e saí satisfeito com o trabalho feito. Quando o treino terminou, ainda comprei um poster com algumas fotografias do meu mestre. Era uma pequena coisa, mas gostei de o trazer comigo.

Quando cheguei a S. Pedro, o Victor e o Rui já me esperavam. Vieram comigo para casa. Jantei e, depois, fui a casa da Lina.

O dia tinha sido comprido. Começara com o Manel a acordar-me e acabara novamente junto dela. Entre os dois momentos tinha cabido uma pequena aventura musical dentro da casa do padre, uma tarde que se prolongara mais do que esperávamos, o treino na Academia e o encontro com a Lina.

Era curioso como os meus dias pareciam estar a ganhar cada vez mais destes pequenos acontecimentos. Alguns eram disparates de dois rapazes, outros tinham para mim uma importância que já começava a ser muito maior. E talvez fosse precisamente essa mistura que tornava aqueles dias tão diferentes uns dos outros.


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