A promessa discreta da quinta-feira

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Segunda-feira, 22 de Agosto de 1977

Levantei-me eram onze e meia, depois de uma noite em que mal consegui dormir. O sono tinha ficado por algum lado, sem querer chegar até mim, e quando finalmente me levantei já a manhã ia adiantada. Tomei o almoço e voltei de novo para a cama. Só às seis e meia me levantei definitivamente, vesti-me e fiquei a ver televisão, tentando deixar o dia correr sem lhe pedir muito.

Pouco depois chegou o Manel e treinámos. O treino fez-me bem. Há dias em que o corpo consegue ocupar o espaço que a cabeça insiste em encher de pensamentos. Durante algum tempo concentrei-me apenas nos movimentos, no esforço e na repetição, deixando que o resto ficasse suspenso.

À noite, depois do jantar, dei dinheiro à minha irmã para trazer do Porto «algo» que pudesse oferecer à Lina na quinta-feira. Quinta-feira era o dia do aniversário dela. Ia fazer dezasseis anos e eu tinha sido convidado. Desde o dia anterior que essa data começava a ganhar uma importância especial para mim e agora queria preparar alguma coisa que lhe pudesse oferecer. Não sabia ainda exactamente o quê, mas queria que houvesse qualquer coisa minha naquele dia.

Mais tarde o Victor apareceu e ficou comigo a ver televisão. Antes de se ir embora, estivemos algum tempo numa conversa particular. Falámos de coisas que ficaram entre nós, longe das conversas habituais e da presença dos outros. Depois fiquei finalmente sozinho.

A noite anterior ainda pesava no corpo. Talvez fosse por isso que tinha dormido tão mal. Ou talvez houvesse outras coisas que me deixavam inquieto. A quinta-feira aproximava-se e, com ela, o encontro com a Lina. Faltavam apenas dois dias. Para mim, naquele momento, parecia muito mais.


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