O que já não me importa
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Domingo, 21 de Agosto de 1977
De manhã, após levantar-me, tomei banho e, quando o Victor chegou, fomos até ao adro da igreja. Não fomos à missa, o que provocou uma reacção do ensaiador, mas não me interessou nada. Já não tinha paciência para me preocupar com aquilo que os outros pensavam das minhas decisões. Havia coisas que começavam a pesar-me mais do que essas pequenas reprovações por isso, deixei que falassem sem sentir necessidade de me justificar.
A manhã passou assim, entre o adro e as conversas habituais, sem que nada de especial parecesse acontecer. Mesmo quando os outros se agitavam por coisas que antes talvez me tivessem incomodado, eu sentia-me cada vez mais distante dessas preocupações. Havia dentro de mim uma espécie de mudança que não sabia explicar muito bem. Continuava a fazer as mesmas coisas, a encontrar as mesmas pessoas e a passar pelos mesmos lugares, mas já não os olhava exactamente da mesma maneira.
À tarde continuei entregue às minhas ocupações e, como tantas vezes acontecia, o tempo foi passando sem que desse por ele. A presença de Lina continuava a surgir no meu pensamento com uma facilidade que já não conseguia evitar. Bastava uma recordação, uma palavra ou simplesmente a lembrança de um encontro para tudo ganhar outra intensidade. Eu ainda não sabia onde aquilo me levaria, mas começava a perceber que a minha vida já não estava organizada apenas à volta das coisas que fazia todos os dias. Havia agora uma pessoa que ocupava um espaço diferente dentro de mim.
Ao fim do dia, fiquei com a sensação de que alguma coisa estava a mudar, embora por fora tudo parecesse igual. Talvez fosse apenas eu que estivesse a mudar. E isso, mais do que qualquer acontecimento concreto, era aquilo que começava a sentir.
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