O Outro Lugar do Tempo

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Sábado, 20 de Agosto de 1977


A manhã começou novamente entregue ao estudo das artes marciais. Já havia vários dias que aquela aprendizagem ocupava uma parte considerável do meu tempo e comecei a sentir que, mais do que uma simples ocupação, se tornara numa espécie de disciplina pessoal. Repeti movimentos, procurei compreender os princípios, voltei atrás quando alguma coisa não me parecia clara. Era um trabalho solitário, mas talvez fosse precisamente isso que me agradava. Enquanto estudava, não tinha de pensar demasiado no resto.

Depois do almoço continuei durante algumas horas, até ao momento em que o corpo pediu descanso. A tarde foi passando entre o estudo, a música e os pequenos acontecimentos que deram alguma vida aos dias de Agosto. A minha cabeça, porém, não permaneceu inteiramente concentrada naquilo que tinha diante de mim. Havia sempre qualquer coisa a interromper o pensamento. A Lina continuava presente, mesmo quando não estava com ela, e comecei a perceber que a nossa relação entrara num território que já não conseguia tratar como uma simples brincadeira de Verão.

Mais tarde encontrei-me com os amigos e, como tinha acontecido ultimamente, a Lina acabou por fazer parte do meu pensamento e das conversas. Depois de tudo o que acontecera nos últimos dias, havia entre nós uma espécie de entendimento que não precisava de ser explicado. Não sabia ainda exactamente onde isto ia dar, nem queria antecipar aquilo que ainda não acontecera. Por agora bastava-me a proximidade, os encontros, a sensação de que alguma coisa se estava a construir, embora eu próprio não soubesse dar-lhe um nome.

À noite, quando fico finalmente sozinho, penso no contraste entre estes dias e os que os precederam. Há pouco tempo sentia-me perdido, sem saber como afastar da cabeça aquilo que tinha acontecido com Dila. Agora a minha vida parece ter encontrado outro movimento. Não significa que o passado tenha desaparecido. Sei que não desapareceu. Mas já não ocupa todo o espaço.

Talvez seja isso que está a mudar em mim. Não estou simplesmente a esquecer alguém. Estou a descobrir que a vida pode continuar depois de uma desilusão e que, às vezes, sem darmos por isso, uma pessoa nova entra no lugar onde julgávamos que só existia vazio.



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