A vida continua sem olhar para trás
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Quarta-feira, 1 de Junho de 1977
Acordei à hora do costume.
Por instantes permaneci deitado a olhar para o tecto. O calendário dizia que começava um novo mês, mas dentro de mim nada parecia diferente.
Levantei-me, preparei-me para sair e apanhei o trólei em direcção ao Porto.
A viagem decorreu como tantas outras. As ruas enchiam-se lentamente de gente, os passageiros entravam e saíam, e a cidade despertava para mais um dia. Procurei concentrar-me nas aulas que me esperavam. Era a única maneira de impedir que os pensamentos regressassem sempre ao mesmo lugar.
A manhã passou sem acontecimentos dignos de registo.
Os professores deram matéria, os colegas conversaram nos intervalos e a vida no liceu seguia o seu ritmo habitual.
À hora do almoço fui à cantina.
Comi quase sem dar conta do que tinha no prato.
As conversas à minha volta misturavam-se num ruído distante que eu já nem tentava acompanhar.
No regresso vim no mesmo trólei que a Gisela.
Sentámo-nos relativamente perto um do outro.
Durante toda a viagem não trocámos uma palavra.
Houve um tempo em que aquele silêncio me teria parecido estranho.
Agora limitava-me a aceitá-lo.
Não sabia se a Dila lhe contara o que acontecera.
Também não sabia se era apenas impressão minha.
Mas tive a sensação de que alguma coisa mudara.
E, pela primeira vez, ocorreu-me que as consequências daqueles dias talvez não ficassem apenas entre mim e a Dila.
Cheguei a casa e descansei um pouco.
Depois sentei-me à secretária.
Passei a tarde a estudar.
Os livros continuavam a ser o único lugar onde conseguia permanecer algum tempo sem pensar em mim.
Ao princípio da noite fui com o meu pai ao cinema ver um filme de karaté.
Durante aquelas duas horas consegui acompanhar a história sem que a minha cabeça fugisse constantemente para outro lado.
Quando saímos da sala, porém, tudo voltou.
O silêncio.
As perguntas.
A culpa.
Ao chegarmos a casa, o meu pai comentou que entrara naquele dia de férias.
Sorri e respondi qualquer coisa.
Noutros tempos teria começado logo a imaginar os dias que poderíamos aproveitar.
Dessa vez não consegui.
Quando me deitei, pensei que Junho acabava de começar.
Não fazia ideia do que me esperava.
Mas começava lentamente a compreender que certas escolhas não terminavam no instante em que eram feitas.
Continuavam a caminhar connosco.
Mesmo quando já desejávamos deixá-las para trás.
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