Refúgio na rotina

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Quinta-feira, 2 de Junho de 1977

Acordei à hora do costume.

Levantei-me sem pressa, preparei-me para sair e apanhei o trólei em direcção ao liceu.

A manhã decorreu sem sobressaltos.

As aulas sucederam-se naturalmente e, quando terminaram, almocei no liceu.

Enquanto comia, observei distraidamente o movimento da cantina.

As conversas cruzavam-se de mesa para mesa, os risos surgiam aqui e ali, e os lugares iam ficando vazios à medida que cada um regressava às suas ocupações.

Tudo parecia exactamente igual aos dias anteriores.

Talvez fosse eu quem já não olhava para as coisas da mesma maneira.

Regressei a casa logo depois do almoço.

Sentia-me cansado, embora não tivesse feito nada que o justificasse.

Deitei-me algum tempo para descansar, não sei se o corpo ou a mente.

Não cheguei a adormecer.

Limitei-me a permanecer de olhos fechados, deixando os pensamentos passarem sem força para os seguir.

Ao fim de algum tempo levantei-me e sentei-me à secretária.

Estudei durante grande parte da tarde.

Os livros continuavam a oferecer-me um abrigo temporário.

Enquanto resolvia exercícios ou relia a matéria, a cabeça ocupava-se com problemas que tinham solução.

Era reconfortante.

A meio da tarde fiz uma pausa para lanchar.

Depois coloquei uma cassete no gravador.

A música encheu o quarto.

Não a escutava verdadeiramente.

Servia apenas para quebrar um silêncio que começava a tornar-se demasiado pesado.

Ao cair da noite jantei com a família.

Mais tarde vi televisão.

As imagens sucediam-se no écran sem que lhes prestasse grande atenção.

Quando me deitei, ocorreu-me que os meus dias começavam a tornar-se previsíveis.

Escola.

Casa.

Estudo.

Música.

Televisão.

Dormir.

Repetia os mesmos gestos quase sem pensar.

Talvez porque fosse mais fácil cumprir a rotina do que enfrentar aquilo que continuava por resolver dentro de mim.

Pela primeira vez percebi que a vida podia continuar exactamente igual por fora... e, mesmo assim, mudar completamente por dentro.


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