As dores que se vêem e as outras

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Sexta-feira, 3 de Junho de 1977

Acordei à hora habitual e saí para o liceu.

A manhã começou de forma diferente do costume.

Durante a aula de Inglês, a turma resolveu assinalar a centésima lição. Houve um ambiente de boa disposição que acabou por contagiar quase toda a gente. Durante algum tempo, dei por mim a rir com os colegas, como acontecia tantas vezes antes.

Foi um daqueles momentos breves em que a vida parecia recuperar a sua leveza.

Quando a pequena festa terminou, o Paulo foi comigo à Electro-Povo.

Conversámos pelo caminho sobre assuntos sem grande importância e, durante algum tempo, consegui esquecer tudo o resto.

Almoçámos depois no liceu e regressámos a casa.

Cheguei cansado.

Deitei-me um pouco e acabei por adormecer.

Só me levantei perto das cinco e meia.

Lanchei rapidamente, peguei no saco do equipamento e segui para a Academia.

O treino foi exigente.

Num dos combates, ao tentar evitar um golpe, apoiei mal o pé e senti logo uma dor aguda.

Continuei até ao fim do treino, mas, quando terminou, o pé já começava a inchar.

Regressei a casa a coxear ligeiramente.

Depois do jantar, massajei o pé e liguei-o com cuidado.

Enquanto o fazia, ocorreu-me como era simples tratar uma lesão daquelas.

Sabia onde doía.

Sabia o que a tinha provocado.

Sabia que, com alguns dias de descanso, acabaria por passar.

Gostava que aquilo que trazia dentro de mim obedecesse às mesmas regras.

Mas havia feridas que não se podiam ligar com uma faixa.

Nem aliviar com uma massagem.

Nem esperar simplesmente que o tempo curasse.

Vi um pouco de televisão antes de me deitar.

O pé continuava dorido.

Mesmo assim, percebi que quase não pensava nele.

Havia uma dor mais antiga que ocupava todo o espaço.

E essa, por muito que tentasse ignorá-la, continuava a acompanhar-me para onde quer que fosse.


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