Refúgio
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Sábado, 4 de Junho de 1977
Hoje resolvi não ir às aulas.
Não havia nenhuma razão especial.
Simplesmente não me apeteceu sair de casa tão cedo.
Levantei-me já perto das dez horas.
Tomei o pequeno-almoço e sentei-me à secretária para estudar Ciências Físico-Químicas.
Passei algum tempo concentrado nos exercícios.
Era curioso como os números, as fórmulas e as leis da Física continuavam a obedecer a uma lógica que a vida parecia ter perdido.
Mais tarde peguei na máquina fotográfica e tirei algumas fotografias ao meu pai enquanto experimentava uns bastões.
Gostava daqueles pequenos momentos.
A fotografia obrigava-me a reparar em pormenores que normalmente me escapavam.
Até ao almoço ainda li algumas páginas de um livro sobre OVNI's.
Aqueles temas fascinavam-me desde pequeno.
Havia qualquer coisa de tranquilizador na ideia de existirem mistérios que não dependiam de nós para serem resolvidos.
Depois de almoço esperei pelos colegas.
Quando chegaram, seguimos para o DIFI.
A sala precisava de ser limpa e passámos praticamente toda a tarde ocupados nessa tarefa.
Arrastámos móveis, varremos o chão, organizámos algum material e procurámos deixar tudo em melhores condições.
O trabalho físico fazia-me bem.
Enquanto tinha as mãos ocupadas, a cabeça concedia-me uma breve trégua.
Viemos embora pouco depois das seis horas.
Cheguei a casa, lanchei e passei o resto da tarde entre a televisão e a leitura.
Depois do jantar voltei a sentar-me diante da televisão.
As horas foram passando sem que acontecesse nada de especial.
Quando me deitei, ocorreu-me que começava a evitar, quase sem dar por isso, tudo o que me obrigasse a enfrentar demasiadas pessoas.
Em casa sentia-me protegido.
No DIFI sentia-me útil.
Fora desses lugares começava a sentir-me deslocado.
Não sabia se aquilo era apenas uma fase.
Ou se, lentamente, me estava a habituar a viver mais fechado dentro de mim do que alguma vez imaginara possível.
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