O silêncio também descansa

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Domingo, 5 de Junho de 1977

Acordei sem pressa.

Era domingo e a casa despertava mais devagar do que nos dias de escola.

Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e tomei banho.

Depois sentei-me a ler durante algum tempo.

As páginas sucediam-se umas às outras sem grande esforço. A leitura continuava a ser uma das poucas actividades capazes de me afastar, ainda que por momentos, dos mesmos pensamentos.

Pouco depois da uma hora almocei com a família.

A tarde começou diante da televisão.

As imagens passavam sem que lhes prestasse grande atenção, até que um colega apareceu para irmos para o DIFI.

Seguimos juntos.

Durante o tempo que lá estivemos dedicámo-nos a arrumar o arquivo de ovnilogia.

Havia pastas para organizar, documentos para separar e apontamentos para colocar no lugar certo.

Era um trabalho paciente, quase monótono.

Talvez por isso me soubesse bem.

Enquanto arrumava aqueles papéis, dava comigo a pensar como seria bom se também fosse possível pôr ordem naquilo que trazia dentro de mim.

Viemos embora mais cedo do que era costume.

Ao chegar a casa, liguei a televisão durante algum tempo.

Mais tarde fui para o pátio, onde estive com as minhas irmãs.

Não fizemos nada de especial.

Falámos de pequenas coisas, interrompidas por longos momentos de silêncio.

Era um daqueles fins de tarde em que bastava estarmos juntos.

Quando anoiteceu entrei para jantar.

Depois recolhi ao quarto.

Antes de apagar a luz, pensei que começava lentamente a habituar-me a viver com aquela inquietação.

Isso não significava que ela tivesse diminuído.

Significava apenas que aprendera a escondê-la melhor.

E essa ideia deixou-me estranhamente inquieto.

Porque, sem dar por isso, começava a recear não apenas a tristeza...

...mas também a possibilidade de um dia me habituar a ela.


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