O cansaço que não se explica

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Segunda-feira, 6 de Junho de 1977

Acordei à hora do costume e apanhei o trólei para o Porto.

A manhã passou rapidamente.

Na última aula saí mais cedo para assistir a um exercício de Português de outra turma.

Gostava daqueles momentos em que era possível observar outras formas de trabalhar a língua. Sentia que, por detrás das regras e da gramática, existia qualquer coisa maior, embora ainda não soubesse exactamente o quê.

Como terminei antes da hora habitual, aproveitei para almoçar mais cedo.

Depois do almoço encontrei alguns colegas do CEPA.

Conversámos durante algum tempo sobre assuntos ligados às actividades do grupo e, quando nos despedimos, segui até uma livraria.

Andava à procura de alguns livros.

Percorri lentamente as prateleiras, retirei um ou outro volume para lhes folhear as primeiras páginas, mas nenhum era aquele que procurava.

Acabei por sair de mãos vazias.

Curiosamente, isso não me desiludiu.

Havia dias em que um livro parecia prometer respostas.

Naquele, limitava-me a procurar companhia.

Regressei a casa ao princípio da tarde.

Sentia um cansaço difícil de explicar.

Deitei-me.

Acordei apenas para lanchar.

Voltei a deitar-me pouco depois.

Dormia mais do que era habitual.

Não porque tivesse sono.

Mas porque, enquanto dormia, a cabeça deixava finalmente de repetir as mesmas perguntas.

À noite quase não jantei.

O meu pai convidou-me para irmos ao cinema.

Aceitei.

Durante o filme consegui esquecer-me de mim próprio por algum tempo.

Mas bastou sairmos da sala para tudo regressar.

O silêncio acompanhou-nos durante boa parte do caminho para casa.

Quando me deitei, ocorreu-me que começava a viver os dias como quem cumpre uma obrigação.

Continuava a estudar.

Continuava a ler.

Continuava a encontrar colegas.

Continuava a fazer tudo aquilo que sempre fizera.

Mas já não encontrava a mesma alegria nas coisas mais simples.

E foi então que me ocorreu uma ideia que procurei afastar imediatamente.

Talvez não fosse o mundo à minha volta que tivesse mudado.

Talvez fosse eu.


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