Capítulo I

HORIZONTE

Há momentos em que uma vida começa a mudar sem que aquele que a vive se aperceba imediatamente.

Não há uma decisão solene, nem uma porta que se fecha com estrondo. Às vezes, a mudança começa simplesmente porque se passa mais tempo fora de casa, porque aparecem novos amigos, porque se aceita um convite, porque uma tarde se prolonga para além do previsto ou porque, depois de muito tempo a olhar para trás, se começa finalmente a olhar para a frente.

É isso que encontramos nestes primeiros dias do Volume IV.

António ainda traz consigo aquilo que ficou para trás. Seria demasiado simples dizer que tudo terminou com o fim do volume anterior. As emoções não obedecem a divisões de capítulos, e muito menos a datas. O que aconteceu continua presente, mesmo quando já não é mencionado.

Mas alguma coisa começa a deslocar-se.

O centro dos seus dias deixa, pouco a pouco, de estar apenas naquilo que sente. Há movimento à sua volta. O Manel torna-se uma presença cada vez mais próxima. Surgem actividades, amigos, ensaios, reuniões, marchas, a Academia, a igreja. Há pessoas novas e, com elas, novas formas de ocupar o tempo.

Nada disto parece, à primeira vista, particularmente importante.

E talvez seja essa a melhor maneira de começar este volume.

Porque as grandes mudanças raramente se apresentam como grandes mudanças.

Começam pequenas.

Uma tarde diferente.

Uma conversa.

Um convite.

Uma amizade que se torna mais frequente.

Um rosto que começa a aparecer mais vezes.

António ainda não sabe para onde está a caminhar. Não procura propriamente um novo caminho, procura apenas continuar. Depois de um período em que esteve demasiado voltado para dentro, começa a descobrir que o mundo continua ali fora, cheio de pessoas e de possibilidades.

Há também uma espécie de inquietação própria dessa idade.

A vontade de experimentar.

De sair.

De conhecer.

De pertencer.

De perceber onde se encaixa.

E talvez seja precisamente isso que torna estes dias tão importantes. António ainda não sabe que está a atravessar uma fronteira. Para ele, são apenas dias que se sucedem, uns mais interessantes do que outros, preenchidos por pequenas ocupações e encontros que parecem, naquele momento, não ter grande consequência.

Nós, porém, estamos a lê-los muitos anos depois.

E essa distância muda tudo.

Sabemos que certas pessoas ainda vão ganhar importância. Sabemos que algumas aproximações não ficarão apenas por uma conversa. Sabemos que aquilo que agora parece apenas companhia poderá transformar-se em sentimento.

Mas não precisamos de dizer mais.

O horizonte não é aquilo que já vemos claramente.

É aquilo que começa a aparecer ao longe quando finalmente levantamos os olhos.

António ainda não sabe o que encontrará lá.

Nós também não devemos ter pressa de lhe dar um nome.

Basta acompanhá-lo enquanto caminha.


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