Primeiros Passos
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Segunda-feira, 20 de Junho de 1977
As aulas terminaram.
É estranho acordar e saber que não preciso de olhar para o relógio para calcular a hora do troleicarro ou pensar nos livros que tenho de levar. Durante tantos meses os dias começaram sempre da mesma maneira. Hoje, pela primeira vez, sinto que o tempo abranda.
Ainda não sei muito bem o que fazer com essa liberdade.
Logo pela manhã o Manel apareceu em minha casa.
Fazia anos.
Tinha combinado ajudá-lo a arrumar uma sala antes da festa e prepará-la para receber os convidados. Quando estava prestes a sair, ainda tive uma discussão com um vizinho. Foram apenas alguns minutos de exaltação. A situação acabou por acalmar e segui o meu caminho.
O Manel já me esperava.
Passámos parte da manhã a arrastar mesas, cadeiras e tudo o que era preciso mudar de lugar. Enquanto trabalhávamos, conversávamos sobre isto e aquilo, interrompendo o trabalho para uma ou outra brincadeira.
Conheço-o há anos.
Tem uma maneira muito própria de tornar simples até as tarefas mais aborrecidas.
Ao regressar a casa almocei com a família.
Depois do almoço peguei num livro que o meu pai tinha comprado havia pouco tempo. Passei algum tempo a folheá-lo, mais por curiosidade do que por verdadeira vontade de ler. Gosto de livros. Mesmo quando ainda não os começo, há qualquer coisa que me atrai neles. Talvez a promessa de histórias que ainda desconheço.
Mais tarde fui para o DIFI.
Continuámos alguns trabalhos que tinham ficado por concluir. Arrumámos material, organizámos a sala e os armários. O ambiente era descontraído. As conversas sucediam-se naturalmente enquanto cada um fazia a sua parte.
Ao fim da tarde regressámos a casa.
Jantei cedo porque, daí a pouco, voltaria a sair.
A festa de anos do Manel reuniu alguns amigos e colegas. Havia música, conversa e boa disposição. Todos pareciam divertir-se.
Eu tentei acompanhar o ambiente.
Sorri quando havia motivo para sorrir.
Conversei.
Participei nas brincadeiras.
Mas, por dentro, sentia-me um pouco afastado de tudo aquilo.
Não era tristeza.
Também não era alegria.
Era apenas uma estranha dificuldade em entregar-me completamente aos momentos.
Antes de regressarmos, eu e o Manel acompanhámos algumas colegas até casa.
A noite estava agradável. Caminhámos sem pressa pelas ruas quase silenciosas, prolongando a conversa mais alguns minutos antes de cada despedida.
Quando finalmente cheguei a casa, pensei que as férias tinham começado de uma maneira diferente daquilo que imaginara.
Sem escola, os dias parecem maiores.
Ainda não sei o que eles me reservam.
Mas, pela primeira vez desde há muito tempo, tenho a sensação de que o caminho deixou de estar marcado à minha frente.
Talvez seja isso crescer.
Descobrir que, um dia, deixamos de seguir apenas os percursos habituais e começamos, devagar, a construir os nossos próprios passos.
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