Dias Sem Campainhas
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Terça-feira, 21 de Junho de 1977
Acordei um pouco mais tarde do que era costume.
A festa de anos do Manel prolongara-se pela noite dentro e, pela primeira vez em muitos meses, não havia campainha da escola nem horários a obrigarem-me a levantar cedo. Ainda permaneci algum tempo na cama antes de decidir começar o dia.
Acabei de ler um livro que trazia já há alguns dias entre mãos.
Fechei-o devagar.
Gosto daquela sensação de chegar à última página. Durante algum tempo as personagens fazem parte dos nossos dias e, de repente, despedem-se sem fazer ruído. O livro fica fechado, mas há qualquer coisa que continua connosco.
Depois tomei o pequeno-almoço.
Fui dar de comer aos patos e, como ainda havia tempo até ao almoço, peguei noutro livro e li mais algumas páginas.
As férias têm um ritmo diferente.
As horas parecem correr mais devagar e já não sinto aquela pressa constante que a escola impunha.
Depois do almoço fui com o meu pai ao Porto comprar roupa.
Percorremos várias lojas, experimentámos algumas peças e acabámos por encontrar aquilo de que precisava. O movimento das ruas era o habitual. Gente apressada, eléctricos a cruzarem-se, montras cheias de novidades e aquele ruído tão próprio da Baixa que sempre me prende a atenção.
Regressámos a casa já durante a tarde.
Lanchei, preparei o kimono e segui para a Academia.
Treinar faz-me bem.
Quando entro no dojo, o resto parece ficar do lado de fora. Cada exercício exige concentração e disciplina. Durante algum tempo, basta-me pensar no movimento seguinte.
No regresso encontrei o Manel.
Ainda estava no ensaio das marchas.
Fiquei algum tempo com ele, vendo os preparativos e conversando um pouco com o pessoal que por ali andava. Aos poucos começo a conhecer melhor alguns daqueles rapazes e raparigas. Já não me sinto apenas um visitante. Ainda continuo mais calado do que a maioria, mas isso nunca me incomodou.
Despedi-me do Manel e voltei para casa.
Jantei com a família.
Agora, enquanto escrevo estas linhas, dou por mim a pensar como estes dias são diferentes dos que vivi durante todo o ano lectivo.
Ainda me estou a habituar a esta liberdade.
Durante meses sabia exactamente onde estaria a cada hora.
Agora cada dia parece abrir espaço para qualquer coisa nova.
Ainda não sei o quê.
E talvez não seja preciso saber.
Por vezes basta caminhar.
O caminho encarrega-se do resto.
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