Capítulo II

 

NOVOS COMPANHEIROS

Há mudanças que começam exactamente quando uma coisa termina.

Na altura, António não podia saber isso. Para ele, o princípio de Julho parece ainda feito das mesmas coisas dos dias anteriores, o Manel, a ginástica, o DIFI, a Academia, as marchas, a igreja, os livros, os amigos. A vida continua a mover-se sem anunciar que está a mudar de direcção.

Mas há um sinal logo no primeiro dia.

No DIFI, quatro elementos demitem-se.

António fica pensativo. Há ali qualquer coisa que começa a desfazer-se, embora ainda não seja possível perceber o alcance dessa ruptura.

E talvez seja significativo que, precisamente quando aquele pequeno mundo começa a perder pessoas, outros mundos se vão abrindo.

O adro da igreja torna-se lugar de encontro. Aparecem novos colegas, novas conversas, novas actividades. Fala-se de teatro. Ensaiam-se peças. Formam-se grupos. As amizades começam a ser discutidas, comparadas, postas à prova. Há quem se aproxime e quem permaneça à distância. Há pessoas que passam rapidamente pelos dias de António e outras que começam, quase sem ruído, a ficar.

É uma idade assim.

As pessoas entram e saem da nossa vida com uma facilidade que só mais tarde percebemos não ser assim tão inocente.

Um amigo apresenta outro.

Um passeio aproxima duas pessoas.

Uma conversa demora-se mais do que seria habitual.

Um olhar fica na memória.

E, quando damos por isso, alguém que ontem era apenas mais um rosto já ocupa um lugar diferente.

É neste ponto que este capítulo se torna importante.

Não porque António encontre imediatamente aquilo que procura, na verdade, ele ainda nem sabe exactamente o que procura.

Mas porque começa a existir ao seu redor uma rede nova de pessoas, de cumplicidades e de possibilidades.

E o Manel continua a ser uma espécie de eixo dessa mudança.

É através dele que muitas portas se abrem. Umas dão para lugares conhecidos. Outras dão para espaços que António ainda não sabe que irão transformar os seus dias.

O leitor sabe mais do que ele.

Não muito.

Apenas o suficiente para desconfiar.

Porque algumas presenças começam aqui de maneira quase insignificante. Um nome num dia. Um encontro noutro. Uma conversa que parece não ter importância. Nada que, naquele instante, justificasse uma segunda leitura.

Mas nós estamos a olhar para estes dias com a distância que António ainda não tinha.

E essa distância permite-nos reconhecer aquilo que ele não podia reconhecer.

Julho ainda não lhe mostra o caminho.

Mostra-lhe apenas mais gente a caminhar ao seu lado.

Por enquanto, isso parece suficiente.

Mais tarde perceberemos que não era.


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