Dia zero
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 1977
De dia para dia, as manhãs tornavam-se mais monótonas, assim como as tardes. O tempo parecia ter adquirido uma lentidão própria. Eu via os minutos passarem e, depois, os quinze minutos seguintes, sempre à espera de que chegasse a hora de a televisão começar. Fora isso, pouco havia para fazer.
Às vezes conseguia encontrar um livro que me prendia durante algumas horas. Quando isso acontecia, entregava-me à leitura com tal sofreguidão que, por vezes, era capaz de o acabar no mesmo dia. Mas eram ocasiões raras. Outras vezes encontrava qualquer coisa para me ocupar. Começava, entretinha-me durante algum tempo e, pouco depois, aborrecia-me e deixava tudo de lado. E lá voltava eu à monotonia de sempre.
Por vezes pensava em sair de casa. Ir para o Centro, ou andar por aí, procurar qualquer coisa que quebrasse aquela sucessão de horas iguais. Mas bastava lembrar-me de que teria de caminhar para que a vontade desaparecesse. Ficava colado ao sofá, ou estendia-me na alcatifa, deixando o tempo passar à minha frente.
A certa altura cheguei mesmo a pensar em deixar de escrever todas as noites o meu dia-a-dia.
Era uma ideia que me incomodava, porque escrever tinha começado a fazer parte da minha vida de uma maneira que eu próprio talvez ainda não compreendesse. No entanto, o que haveria para escrever quando todos os dias pareciam repetir-se? Se eu próprio sentia que estava sempre a escrever a mesma coisa, sem fugir ao tema, talvez fosse natural acabar por me cansar também da escrita.
Dentro de pouco tempo começariam as aulas. Isso mudaria alguma coisa. Haveria mais movimento, mais acontecimentos, mais pessoas, mais coisas para ocupar os dias. Mas, no fundo, seria apenas uma mudança de cenário. A rotina poderia continuar a ser outra forma de rotina.
Foi então que pensei na verdadeira razão por que continuava a escrever.
Talvez eu fosse movido pela vontade de conservar aqueles dias. Não todos, naturalmente. Sobretudo os bons, que eram raros, mas que precisamente por serem raros mereciam ficar guardados. Talvez escrever fosse uma maneira de não deixar desaparecer completamente uma parte da minha juventude.
E, quando pensei nas pessoas que tinham atravessado esses anos, apareceram naturalmente os nomes que mais significado tinham tido para mim. Primeiro a Odília, "Dila". Depois a Paula ou a Manuela, já nem sei exactamente como colocar essa lembrança. E agora a Lina.
Cada uma delas me tinha deixado alguma coisa. Não propriamente algo que pudesse guardar nas mãos ou apontar com o dedo. Era qualquer coisa de imaterial, mas que eu sentia como verdadeira. Tinham contribuído para a minha formação, para aquilo que eu pensava, para aquilo que começava a compreender sobre as pessoas e, sobretudo, para aquilo que um dia haveria de recordar.
A Dila conhecia-a havia quase três anos. Foi ela quem me abriu os olhos e o coração. Nunca tinha estado apaixonado durante tanto tempo por uma jovem. Se a deixei, foi precisamente porque a amava e compreendi que, para haver alguma coisa entre nós no futuro, teria de aceitar ideias que não eram as minhas. Ela era Testemunha de Jeová e eu era ateu perante todas as religiões. Uma diferença dessas não era pequena e eu sabia-o. A pressão da sua família também contribuiu um pouco para o desfecho dramático da nossa relação.
As outras raparigas que, entretanto apareceram na minha vida serviram-me, de certo modo, para compreender melhor o universo feminino. Foram experiências diferentes, pessoas diferentes, sentimentos diferentes.
E depois surgiu a Lina.
Não é muito bonita. É forte, mais baixa do que eu, de ombros largos, com um corpo de mulher. Mas não foi o corpo que me atraiu. Na verdade, eu próprio não sabia explicar exactamente o que me tinha atraído nela.
Ela simplesmente atraía-me.
Essa sensação já existia antes de a beijar e continuou depois. Era uma coisa difícil de definir. Quando estava sozinho e pensava nela, esquecia a palavra amor e aquilo que ela significava. Mas quando estávamos juntos, surgia em mim a vontade de revelar-lhe aquilo que sentia naquele momento.
Havia coisas nas nossas conversas que eu preferia não comentar. Podiam ser entendidas de várias maneiras e talvez algumas dessas maneiras fossem demasiado próximas daquilo que eu próprio ainda não sabia explicar.
Enquanto escrevo tudo isto, sinto novamente o peso do meu próprio corpo e da minha mente. É como se estivesse permanentemente ocupado por uma inquietação que não sei desligar. A mão cansa-se de escrever, os olhos começam a semicerrar-se e o sono toma conta de mim lentamente, como acontecia todos os dias, da manhã à noite.
Talvez seja melhor deixar tudo por ali.
A verdade é que até ao dia de hoje, visto apenas pelos acontecimentos, nada teve de especial. Não houve encontros importantes, passeios, aventuras ou acontecimentos dignos de uma grande descrição.
No entanto, sem eu saber, hoje acabei de fazer qualquer coisa que nenhum dos dias anteriores tinha conseguido fazer.
Parei de olhar para dentro de mim.
É por isso que lhe chamei Dia zero.
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