Pequenos mundos à minha volta
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 1977
Há dias em que começo a olhar para as pessoas que me rodeiam como se estivesse sentado diante delas, mas a uma certa distância, procurando perceber o que se passa dentro de cada uma. Talvez seja uma espécie de psicanálise improvisada, feita por alguém que ainda não sabe grande coisa da vida, mas que já percebeu que cada pessoa transporta consigo um mundo que nem sempre mostra.
Parece, e é verdade, que aqueles com quem convivo parecem doidos.
O primeiro caso que me vem à cabeça é o do Victor. Ele julga-se odiado por todos e, por isso, pretende fugir. Há qualquer coisa nele que me custa compreender. Talvez seja a maneira como interpreta aquilo que os outros fazem ou dizem, talvez seja simplesmente a sua maneira de ser. O certo é que parece estar sempre a lutar contra uma espécie de inimigo que, muitas vezes, talvez só exista na sua cabeça.
E depois há o Manel, que reage de uma maneira que nem sempre consigo explicar. É curioso observar como cada um de nós responde às mesmas coisas de maneira tão diferente. Vivemos juntos, conhecemo-nos há bastante tempo, fazemos brincadeiras, discutimos, reconciliamo-nos, mas continuamos a ser, no fundo, desconhecidos uns dos outros.
Hoje, quando regressava da Academia, aconteceu-me uma coisa que nada tinha de extraordinário e, no entanto, me fez sorrir.
Ao aproximar-me da estátua daquele soldado de bronze no largo de Santa Eulália em Fânzeres, lembrei-me de um episódio antigo. Eu e o Manel costumávamos ir no mesmo trólei para o Porto. Sempre que o trólei passava junto daquela estátua, nós abaixávamo-nos com receio de que o soldado nos ferisse.
Era uma infantilidade, evidentemente. Sabíamos perfeitamente que aquele soldado era de bronze e que não podia fazer-nos mal. Mas, naquele tempo, a brincadeira parecia-nos suficientemente séria para nos baixarmos ao passar por ele.
Hoje lembrei-me disso e sorri.
Talvez seja por estas pequenas recordações que gosto de guardar certas coisas. Um acontecimento pode parecer ridículo no momento em que acontece e, anos depois, transformar-se numa pequena peça da nossa memória. A estátua continuava no mesmo lugar, imóvel como sempre, mas nós já não éramos os mesmos.
Depois pensei no Rui.
O caso dele parece-me ainda mais difícil de compreender. Pretende-se infeliz, odeia os pais, perde o interesse por si próprio e também pelos próprios pais. Há nele uma espécie de abandono que não sei explicar. Talvez pense que ninguém o compreende. Talvez também não faça grande esforço para compreender os outros.
Um dia, mais tarde, hei-de procurar ajudá-lo a resolver os seus problemas.
Digo isto quase como se tivesse já nas mãos a experiência necessária para o fazer. Talvez seja presunção minha. Mas quando observo alguém que sofre, tenho dificuldade em ficar simplesmente a assistir. Mesmo quando não sei exactamente como ajudar, fica dentro de mim a vontade de procurar uma solução.
E no meio de todos eles está a minha própria figura, que, para eles, é ridícula.
Talvez seja mesmo assim. Cada pessoa vê as outras a partir do seu próprio ponto de vista e, muitas vezes, aquilo que para mim é perfeitamente natural pode parecer absurdo aos outros. Não sei se algum de nós consegue realmente conhecer-se a si próprio, quanto mais conhecer os outros.
Também penso nas outras pessoas que fazem parte deste pequeno círculo. A irmã da Lina e as acompanhantes dela não gostam de mim e, pelo que vejo, também não gostam daqueles que me acompanham.
Em parte, não posso dizer que não tenham razão. Há brincadeiras estúpidas que alguns dos meus companheiros fazem e que acabam por provocar reacções que depois se estendem a todos. É fácil culpar um grupo inteiro pelo comportamento de alguns. Também é fácil não perceber que, do outro lado, há pessoas que têm as suas próprias razões.
A Paula, irmã da Lina, começou novamente a relacionar-se comigo de uma maneira mais amigável.
Até quando?
Não sei.
O tempo responderá.
Há coisas que não vale a pena tentar prever. Hoje uma pessoa aproxima-se, amanhã afasta-se. Hoje parece compreender-nos, amanhã pode voltar a olhar-nos com desconfiança. As relações entre as pessoas são muito mais frágeis do que às vezes pensamos.
E, entretanto, eu e a Lina continuamos a ser dois anjinhos proibidos de entrar no paraíso porque “não deixam”.
É uma imagem que me faz sorrir, embora tenha nela uma parte de verdade.
Os nossos beijos agora têm de ser furtivos. Não porque tenhamos deixado de querer estar juntos, mas porque há sempre alguém a vigiar, alguém que pode aparecer, alguém a quem não convém que sejamos vistos.
Foi assim também hoje.
Um beijo roubado ao olhar dos outros vale, naquele instante, muito mais do que parece. Não por ser simplesmente um beijo, mas porque nele existe a consciência de que temos de encontrar pequenos espaços onde possamos ser apenas nós os dois.
Talvez seja isso que torna certas coisas mais intensas. Quando tudo é fácil, quase não pensamos no seu valor. Quando alguma coisa nos é dificultada, passamos a reparar em cada instante que conseguimos conquistar.
No fim, este dia foi normalíssimo, como os outros.
Mas talvez nenhum dia seja realmente normal quando começamos a reparar nas pessoas, nas suas fraquezas, nas suas contradições e também nas nossas.
Hoje olhei um pouco para o meu círculo de amigos como quem tenta perceber uma pequena sociedade em miniatura. Uns sentem-se perseguidos, outros infelizes, outros zangados, outros simplesmente procuram o seu lugar.
E eu, que os observo, talvez também faça parte da mesma confusão.
A diferença é que comecei a ter curiosidade em perceber porquê.
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