Entre o trabalho e o futuro

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Sábado, 17 de Setembro de 1977

Estava a jantar quando o meu pai me pediu para o acompanhar à sede do PCP.

A maneira como me fez o pedido foi suficiente para eu perceber que não se tratava de uma visita sem importância. Pensei logo no emprego dele. Há coisas que não precisam de ser explicadas. Basta uma palavra, um olhar ou uma mudança no tom da voz para começarmos a juntar aquilo que já sabemos.

Nos últimos dias tinha-se falado bastante do desemprego. O ministro da Informação prevenira o país, mais propriamente os jornais, de que era necessário desempregar parte dos trabalhadores internos do sector. Entretanto, dois matutinos lisbonenses tinham sido encerrados para sempre.

Eu sabia dessas coisas como toda a gente sabe das notícias. Mas agora havia uma diferença. O meu pai estava ali, à minha frente, e pedia-me que fosse com ele à sede do PCP.

De repente, a palavra desemprego deixou de estar apenas nos jornais. Passou a poder dizer respeito ao meu pai. Fomos.

Durante a noite tentámos perceber o que poderia ser feito. Não sei se levava comigo alguma esperança de que dali saísse uma solução. Talvez levasse apenas aquela inquietação que cresce quando sabemos que uma coisa importante está em perigo, mas ainda não sabemos exactamente como vai acabar.

Quando era já meia-noite, decidimos vir embora sem nada resolvermos.

O que a sede nos poderia ajudar era na possibilidade de uma partida para Moçambique, coisa que já há algum tempo estivera para acontecer. Moçambique. A palavra ficou-me na cabeça.

É estranho pensar que a solução para um problema de trabalho possa ser partir. Deixar uma terra conhecida, as pessoas, os lugares, os hábitos de todos os dias, e procurar longe aquilo que aqui pode faltar. E tudo isto por causa de um emprego.

Talvez seja esta a parte que mais me revolta. Um homem pode trabalhar durante anos e, de repente, alguém decide que há trabalhadores a mais. A partir daí, o que para uns é uma decisão, para outros pode significar uma mudança completa de vida.

O “nosso” querido governo, note-se que dos trabalhadores, luta com o grave problema do desemprego e, pelos vistos, o plano “deles” é mandar tudo para o desemprego e depois empregar de novo, mas por concurso, como no totobola. Só acerta quem tem sorte e… dinheiro.

Não sei se algum dia vou perceber verdadeiramente a política. Há nela demasiadas palavras e, por vezes, poucas respostas para quem precisa delas. Mas uma coisa parece-me evidente. Quando se fala de trabalhadores, não se está a falar de números. Cada um tem uma casa, uma mulher, filhos, contas para pagar e preocupações que não aparecem nos discursos.

E talvez por isso me tenha vindo outra ideia à cabeça.

Ainda há quem pense em casar, com a vida que está.

Loucos, aventureiros, audazes ou… capitalistas. Não me importava de o ser. Disse isto quase a brincar, mas depois a ideia ficou.

Já perguntei a mim mesmo:

“Casarei?”

A resposta foi pronta e rápida:

“Não, ou se a vida (económica) correr melhor.”

Talvez pareça estranho estar a pensar no casamento enquanto o problema do emprego do meu pai está por resolver. Mas estas coisas acabam por se juntar na cabeça. Se um homem quiser construir uma vida com alguém, precisa de ter qualquer coisa onde a apoiar. Não basta querer.

E eu penso na Lina. Não sei o que será de nós. Sei apenas que ela espera “algo” de mim e eu não a quero desiludir. Essa ideia pesa-me mais do que eu gostaria de admitir.

Talvez porque gostar de alguém seja fácil enquanto se pensa apenas no presente. O difícil começa quando se olha um pouco mais longe e se pergunta o que poderemos dar um ao outro. Eu ainda não tenho respostas para isso. Tenho dezassete anos e, apesar de às vezes me parecer que já compreendo muita coisa, basta pensar no futuro para perceber o pouco que sei.

Hoje fui com o meu pai procurar uma solução para o seu trabalho e acabei a pensar no meu próprio trabalho, na minha futura casa, no casamento e na Lina.

É curioso como uma preocupação pode abrir tantas outras. Por enquanto, nada está resolvido.

O emprego do meu pai continua em risco. Moçambique continua a ser apenas uma possibilidade. E o meu futuro, esse, é ainda uma coisa distante que tento imaginar sem saber que forma terá.

Talvez seja cedo para pensar em tudo isto.

Mas já não consigo deixar de pensar.

E… foi tudo!


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