Entre o desejo e o limite
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Domingo, 18 de Setembro de 1977
Eu e o Manel fizemos há algum tempo a promessa de corrermos todos os domingos e hoje, apesar do tempo chuvoso, cumprimos pela terceira vez.Não é uma coisa extraordinária, mas gosto da ideia de haver qualquer coisa que fazemos porque prometemos fazê-la. Mesmo quando o tempo não ajuda, mesmo quando talvez apetecesse mais ficar em casa, lá vamos nós.
Hoje, porém, estou cansado e pouco me apetece escrever.
Talvez por isso as coisas que tenho para contar me pareçam ainda mais próximas. Há dias em que uma pessoa vive mais do que consegue escrever.
Esta tarde tinha combinado sair com a Lina.
Confesso que já vinha a temer este domingo.
Não pelo passeio. O passeio, por si só, não me assustava. O que me preocupava era aquilo que poderia acontecer se ficássemos os dois sozinhos.
Tenho pensado bastante no que acontece com algumas raparigas dos arredores. Muitas acabam por casar porque perdem a cabeça. Não estou a tentar tirar conclusões sobre ninguém, muito menos sobre a Lina. Mas é uma coisa que vejo e que me faz pensar no caminho que eu próprio quero seguir.
Há uma diferença entre gostar de alguém e deixar que esse gosto decida tudo por nós.
Eu e a Lina já nos beijámos. Gosto de a beijar. Tenho vontade dela e não vou fingir o contrário. A vontade existe e, por vezes, é bastante forte.
Mas há outra coisa dentro de mim que manda parar.
Talvez seja aquilo a que chamo seguir o caminho certo.
Hoje, apesar dessa necessidade e dessa vontade dos actos carnais, fiquei apenas pelos beijos.
Não foi por falta de desejo.
Foi precisamente porque o desejo existe que tive de me controlar.
O erro é humano, eu sei. Mas também sei que há erros que depois não se desfazem com a mesma facilidade com que se cometem. E eu não quero olhar para a Lina de uma maneira que não corresponde àquilo que ela é para mim.
Felizmente, os sentimentos dela para comigo parecem fortes. Sinto que também existe nela uma necessidade, uma aproximação que não é apenas minha.
E talvez seja isso que torna tudo mais difícil.
Quando duas pessoas se desejam, é fácil deixar que o desejo decida por elas. O difícil é saber até onde se deve ir.
Hoje quis, mas não quis.
Parece contraditório.
E é.
Talvez seja essa a minha maior confusão neste momento: querer uma coisa com toda a força e, ao mesmo tempo, saber que não a quero dessa maneira.
Ainda não sei exactamente onde termina o desejo e começa aquilo que considero certo.
Sei apenas que hoje consegui parar.
E isso, para mim, já significa alguma coisa.
Foi o primeiro domingo.
E talvez eu ainda tenha muitos domingos pela frente para perceber melhor o que quero.
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