Com os olhos para lá da Terra

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Segunda-feira, 19 de Setembro de 1977

Há mais de um ano que me dedico ao estudo da Ovnilogia. Ultimamente tenho-lhe dado menos atenção. Outras coisas foram ocupando o lugar que antes pertencia aos OVNI, mas não quero deixar completamente de lado uma coisa que me interessou tanto durante este tempo, até porque fui eu próprio que formei um grupo para esse estudo.

Quando se fala em OVNI com alguém, quase sempre acontece uma de duas coisas, ou a pessoa se ri, porque não leva o assunto a sério, ou começa imediatamente a imaginar discos voadores, seres vindos de outros planetas e histórias de ficção científica.

Poucos dão uma resposta que se aproxime verdadeiramente daquilo que a palavra significa. O.V.N.I. é simplesmente a abreviatura de objecto voador não identificado. E isto é importante.

Um objecto não identificado não é necessariamente um disco voador, muito menos uma nave vinda de outro planeta. Significa apenas que não foi possível identificar aquilo que se observou.

É curioso como uma palavra pode levar a outra ideia completamente diferente. Para os mais cépticos, um “disco voador” pode não passar de um prato lançado ao ar, como os que se usam no tiro ao prato. Para outros, porém, a ideia é bem diferente, imaginam uma máquina voadora vinda de outro planeta, conduzida por seres que poderiam querer subjugar a Terra.

Entre uma coisa e outra existe uma enorme distância. E é precisamente essa distância que me interessa. Não quero acreditar em tudo só porque gostaria que fosse verdade. Mas também não vejo razão para negar uma possibilidade apenas porque ainda não conseguimos prová-la.

Júlio Verne já previa as viagens espaciais da Terra à Lua quando essas viagens pareciam pertencer ao domínio da fantasia.

Então, onde acaba aquilo que é impossível e começa aquilo que simplesmente ainda não conseguimos fazer?

Também seria uma espécie de pessimismo afirmar que não existem planetas habitados no nosso universo. Mas seria igualmente optimista afirmar que o sistema solar mais próximo possui uma família de planetas e que num deles existe vida. Não sabemos. E talvez seja precisamente esse “não sabemos” que torna o assunto interessante.

Mesmo que existisse vida noutro planeta, ainda haveria problemas muito maiores para resolver. As comunicações. O contacto. A distância.

O sistema solar mais próximo encontra-se, aproximadamente, a 8,9 anos-luz. Mesmo que conseguíssemos viajar à velocidade da luz, continuaria a existir o problema do tempo. Não basta descobrir que existe alguém. É preciso conseguir chegar até esse alguém.

E talvez isso seja uma das coisas que mais me impressionam quando penso nestes assuntos. A Terra parece-nos enorme porque é aqui que vivemos, porque conhecemos as suas cidades, os seus países e os lugares onde podemos chegar de comboio, de automóvel ou de avião. Mas quando começamos a pensar no espaço, tudo aquilo que conhecemos parece diminuir.

Há planetas para além dos que conhecemos. Poderá existir um nas proximidades da Cygni-61, creio eu, cuja oscilação parece indicar a presença de um planeta. Segundo os cálculos, seria maior do que Júpiter. Oxalá se provasse.

Gostaria de viver o suficiente para ver algumas destas perguntas deixarem de ser perguntas. Talvez um dia alguém descubra aquilo que hoje apenas suspeitamos. Talvez se descubram outros mundos, outras formas de vida, outras coisas que ainda nem sequer sabemos imaginar. Mas, por enquanto, interessa ter os pés assentes na Terra.

É fácil deixar a cabeça viajar demasiado longe quando se pensa no espaço. E eu ainda tenho a Terra para compreender.


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