O homem que ainda não sou
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Terça-feira, 20 de Setembro de 1977
À primeira vista, pareceram-me homens casados. Teriam, aparentemente, mais de trinta e oito anos e, pela maneira como se apresentavam, pareciam pertencer a um nível social acima da pequena burguesia. Estavam bem-dispostos, conversavam entre si e pareciam perfeitamente à vontade.
Aquela imagem, que para qualquer outra pessoa poderia não passar de uma cena vulgar de uma noite qualquer, deixou-me pensativo.
Comecei a imaginar o que estaria por detrás daqueles homens. Que famílias teriam em casa? Como seriam as suas mulheres? Que tipo de relações manteriam com elas quando não estavam entre amigos? Seriam realmente felizes ou aquela boa disposição era apenas aquilo que se via do lado de fora?
Não queria ser pessimista, muito menos mexeriqueiro. Mas tive curiosidade em conhecer pessoalmente a vida familiar de cada um deles.
Sempre tive a ideia de que existem muito poucos casais verdadeiramente felizes. Talvez esteja errado.
Mas, na minha maneira de ver as coisas, quando um homem tem problemas em casa, sobretudo problemas que se traduzem em discussões familiares, é natural que procure sair. Talvez vá para a rua, para um café, para junto dos amigos, para qualquer lugar onde possa esquecer durante algumas horas aquilo que deixou para trás.
Por isso aqueles homens me intrigavam. Estavam ali e pareciam não ter problema nenhum.
Talvez fosse apenas uma reunião de amigos. Talvez fossem simplesmente homens que tinham combinado encontrar-se para conversar, beber qualquer coisa ou passar algum tempo juntos. E, no entanto, aquela imagem levou-me muito mais longe.
Imaginei-me a mim próprio casado. Foi estranho pensar nisso.
Eu, naquela altura, ainda tão longe de uma vida dessas, tentei imaginar-me numa noite semelhante, no meio de um grupo de amigos, depois de um dia de trabalho, com uma mulher à minha espera em casa.
E então surgiu-me uma conclusão quase desoladora. Eu teria apenas um amigo.
A ideia fez-me pensar na importância dos amigos na vida de um homem. Talvez antes de casar seja preciso pensar não apenas na mulher com quem vamos casar, mas também naquilo que seremos nós próprios muitos anos depois.
Porque a mulher que conhecemos hoje continuará a ser exactamente a mesma daqui a dez ou vinte anos?
Será que as pessoas permanecem iguais?
Comecei a pensar na futura esposa que um homem imagina quando é jovem. Ele quer que ela continue bonita. Quer que continue jovem, pelo menos aos seus olhos. Quer que o amor se mantenha igual ao primeiro dia. Quer ter um filho. Quer sair aos domingos com ela. Quer voltar aos lugares onde foi feliz e levar consigo a mulher que ama. Quer receber os amigos em casa, sentá-los à mesa e partilhar com eles uma refeição.
Tudo isso parece simples quando imaginado separadamente. Mas, para querer tudo aquilo, é preciso ter dinheiro, amigos e amor. E talvez seja aí que a coisa comece a complicar-se.
Imaginei-me casado e rico. Por momentos, essa imagem pareceu-me agradável. Dinheiro resolveria muitos problemas e permitiria fazer muitas das coisas que eu imaginava para uma vida futura.
Mas depois apareceu a parte mais difícil da imaginação. A mulher. Não sabia como seria. E talvez fosse essa a pergunta para a qual não havia resposta.
Poderia imaginar uma casa, dinheiro, amigos, filhos, viagens, domingos e jantares. Mas não conseguia imaginar quem estaria ao meu lado dentro dessa casa.
Talvez porque ainda estivesse demasiado perto do princípio da minha própria história para conseguir imaginar o seu fim.
E, enquanto pensava em tudo isto, compreendi que aquela simples observação de alguns homens numa paragem de tróleis tinha acabado por me levar para um futuro que ainda estava muito longe. Um futuro que me atraía e, ao mesmo tempo, me assustava.
Há coisas que o futuro deve guardar para si. Hoje, na paragem dos tróleis, vi apenas um grupo de homens a conversar e a rir. Eu, por momentos, vi-me entre eles. Depois o trólei chegou e a imagem acabou.
Fiquei com as perguntas.
E com vontade de não escrever.
Hoje foi só uma reflexão.
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