Entre o Medo e a Brincadeira

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Quarta-feira, 6 de Julho de 1977

Depois da ginástica matinal fui com o Manel a casa do padre.

Passei uma peça de teatro à máquina para um colega. O Manel, entretanto, passou uma canção enquanto eu ouvia música.

Quando chegou a hora do almoço, voltei para casa.

Sentia-me maldisposto.

Mais do que maldisposto, estava chateado.

Acabei por não almoçar.

À tarde voltámos a casa do padre. Desta vez ocupámo-nos a limpar e arrumar uma garagem.

Depois vim a casa lanchar e voltei novamente para a biblioteca.

Fiquei por lá algum tempo, até à hora de jantar.

À noite saí com o Manel, o Zé e o Victor.

Fizemos um pequeno passeio.

A certa altura estivemos quase a ter uma bulha, mas a situação acabou por passar.

Continuámos o caminho e, mais adiante, encontrámo-nos com algumas colegas. Seguimos juntos durante algum tempo e, a certa altura, parámos.

Começámos a falar de bruxas.

Elas começaram a ficar assustadas.

Depois falámos de exorcismos. Não sabiam muito bem do que se tratava e tivemos de lhes explicar.

Quando perceberam melhor o assunto, resolveram partir rapidamente.

Eu acompanhei o Manel a sua casa e regressei à minha.

A verdade é que ele também estava um pouco amedrontado, embora ele não quisesse admitir isso.

Agora, ao recordar a noite, acho graça.

Éramos capazes de nos meter em conversas sobre bruxas e exorcismos para assustar as raparigas e, pouco depois, seguíamos nós próprios com algum cuidado pelo caminho.

Esta é, talvez, a idade em que queremos parecer mais corajosos do que somos.

Talvez porque ainda não sabemos muito bem onde acaba a brincadeira e começa o medo.

Hoje fiquei maldisposto, passei a tarde a trabalhar e terminei a noite a assustar outras pessoas enquanto eu próprio não estava assim tão tranquilo.

Não foi um grande dia.

Mas foi mais um dia vivido entre amigos.

E começo a perceber que são precisamente estas pequenas coisas, algumas sérias e outras completamente disparatadas, que estão a preencher as minhas férias.


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