Um dia sem pressa

 

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Quinta-feira, 7 de Julho de 1977

Como tem acontecido quase todos os dias, levantei-me tarde e fiz ginástica.

Depois chegou o Manel e ficámos os dois a ouvir músicas de cassetes. Passámos a manhã quase toda assim, entre uma canção e outra, conversando de vez em quando, sem termos nada de especial para fazer e sem que isso nos preocupasse. Há dias em que parece que temos necessidade de estar sempre ocupados, como se ficar simplesmente sentado fosse uma perda de tempo. Hoje não senti nada disso.

De tarde fui com o Manel fomos para a biblioteca e, mais tarde, passámos por casa de um colega. Viemos lanchar e fomos ao ensaio.

À noite encontrei-me com alguns colegas e fomos passear. Não tínhamos nenhum programa. Fomos andando pelas ruas, conversando sobre umas coisas e outras, parando aqui e ali, sem sabermos muito bem a que horas haveríamos de voltar. À meia-noite menos um quarto trouxeram-me a casa e foram embora.

Ainda vi a maior parte de um filme antes de terminar o dia.

Talvez seja estranho escrever tanto sobre um dia assim. Se olhar apenas para aquilo que fiz, não há grande coisa para contar. Levantei-me tarde, estive com o Manel, fui à biblioteca, fui ao ensaio e passei a noite com os colegas. Foi tudo.

Mas começo a descobrir que nem sempre aquilo que faço durante o dia é o que mais fica comigo.

Tenho gostado desta maneira de passar os dias. Há qualquer coisa de agradável em não saber exactamente o que vou fazer quando me levanto. Posso estar com o Manel de manhã, ir à biblioteca à tarde, encontrar os outros à noite e só pensar em voltar para casa quando já for tarde. Não há necessidade de preparar tudo antes. As coisas vão aparecendo e eu vou vivendo conforme aparecem.

Talvez esteja a aprender a não querer controlar tudo.

Também tenho reparado que, ultimamente, me dá mais vontade de escrever sobre certas coisas que antes provavelmente nem pensaria nisso. Não porque tenham acontecido coisas extraordinárias, mas porque algumas permanecem dentro de mim depois de o dia acabar.

É uma sensação nova.

Antes parecia-me que escrever era sobretudo uma maneira de guardar o que tinha feito, para mais tarde poder recordar. Agora começo a perceber que, enquanto escrevo, também vou pensando melhor nas coisas. Às vezes começo uma frase sem saber exactamente onde quero chegar e, quando acabo, já percebi qualquer coisa que durante o dia não tinha percebido.

Talvez seja por isso que estes dias me estão a fazer bem.

Tenho tido mais liberdade, mais companhia e mais vontade de estar com os outros. E talvez isso esteja também a fazer com que eu próprio apareça um pouco mais nestas páginas.

Ainda não sei muito bem explicar o que está a acontecer.

Sei apenas que já não me apetece escrever os meus dias como quem faz uma lista.

Há coisas que agora quero contar devagar.


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