Não volto com a palavra atrás
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 1977
De manhã, depois de me levantar, esperei pelo Manel para fazermos ginástica. Quando chegou, acabámos por conversar mais do que treinar. Ainda tínhamos o passeio do dia anterior muito presente e havia bastante coisa para recordar. Eu estava de bom humor e sentia-me bem por poder falar com ele depois de um dia tão cheio. Talvez ainda estivesse sob o efeito da viagem e, sobretudo, da companhia da Lina. Havia momentos que continuavam a voltar-me à cabeça sem que eu os procurasse.
À tarde fui ao DIFI, mas fiquei apenas uma hora. Depois saí e fui passear com o Manuel para um dos lugares onde costumava encontrar-me com a Dila. Estar ali trouxe-me algumas recordações, embora não quisesse particularmente ficar preso ao passado. Nos últimos dias, havia outra pessoa que ocupava grande parte dos meus pensamentos. A Lina tinha começado a estar presente mesmo quando não estava comigo, e isso era uma coisa nova para mim. O que acontecera entre nós na viagem de regresso tinha tornado tudo ainda mais confuso. Eu já não conseguia olhar para a nossa relação como se nada tivesse mudado.
À noite, depois do jantar, treinei e mais tarde apareceu o Victor. Ficou comigo a ver televisão e depois estivemos a conversar até perto da uma da manhã. A casa estava sossegada e a conversa prolongou-se sem darmos por isso. Quando finalmente fiquei sozinho no quarto, voltei a pensar na Lina e no que acontecera no dia anterior.
Agora, sozinho no quarto, volto inevitavelmente a pensar na Lina. Não tanto no que aconteceu, mas no que isso provocou em mim. Ainda sinto o efeito daquela proximidade e custa-me aceitar que uma coisa tão nova possa ter surgido entre nós quase sem darmos por isso. A Lina mostrou-me que também queria aquela proximidade e eu deixei-me levar por uma sensação que nunca antes tinha experimentado. Foi um contacto que me perturbou e encantou ao mesmo tempo. Havia prazer, mas havia também espanto. Eu próprio não sabia ainda como conciliar aquilo com tudo o que tinha acontecido antes. Há qualquer coisa nela que me atrai cada vez mais e que já não consigo reduzir à amizade.
Talvez seja isso que me deixa tão indeciso. Há poucos dias pedi-lhe namoro e ela não respondeu. No dia seguinte tentei voltar atrás, como se pudesse simplesmente retirar o que tinha dito e fazer de conta que nada acontecera. Mas agora já não me parece tão fácil. Depois daquela viagem, a Lina tornou-se ainda mais difícil de afastar dos meus pensamentos. Não sei o que ela pensa de nós, nem sei sequer o que vai acontecer daqui para a frente. Sei apenas que aquilo que vivi com ela não foi indiferente para mim.
E talvez por isso, desta vez, não queira voltar com a palavra atrás.
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