Entre duas palavras
← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →
Terça-feira, 2 de Agosto de 1977
De manhã, o Manel veio acordar-me muito cedo para fazermos ginástica. Ainda tinha muito sono e não consegui vencer a vontade de continuar na cama. Deixei-me ficar, voltei a adormecer e só me levantei perto das onze horas. A manhã ficou assim praticamente perdida, sem que isso me preocupasse muito.
À tarde fui para o DIFI e fiquei por lá até às cinco. Quando cheguei a casa, deitei-me a ouvir música. Precisava de descansar e talvez também de ficar um pouco sozinho com os meus pensamentos. Nos últimos dias, havia demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo e nem sempre conseguia perceber muito bem o que fazer com elas.
À noite, eu e o meu pai combinámos ir ao cinema. Parecia uma coisa simples e ficou decidido entre nós. Pouco depois apareceu o Manel e disse-me que tinha combinado com a Lina que eu me encontraria com ela às nove e meia. Fiquei imediatamente aborrecido. Não era apenas por ter de escolher entre duas coisas que queria fazer. O que me incomodava era saber que tinha dado a minha palavra ao meu pai e não queria voltar atrás no que lhe tinha dito.
A Lina, porém, começava a ter um peso diferente nas minhas decisões. Se fosse apenas uma amiga, talvez a escolha me parecesse mais fácil. Mas já não era assim. Depois dos últimos dias, depois daquilo que acontecera entre nós, eu queria vê-la. Queria estar com ela. E foi precisamente isso que tornou a situação mais difícil.
Acabei por ir ao cinema com o meu pai. Fui contrariado, não por estar com ele, mas porque sabia que, enquanto estivesse ali, a Lina estaria à minha espera. Custava-me pensar que ela pudesse interpretar a minha ausência como desinteresse ou como mais uma hesitação minha. Eu próprio não queria que parecesse isso. Tinha tentado recuar alguns dias antes, mas agora sentia que já não conseguia continuar a fazer de conta que ela me era indiferente.
Durante o filme, não deixei de pensar nela. A minha cabeça estava ali e, ao mesmo tempo, estava noutro lugar. Sabia que tinha escolhido cumprir a palavra dada ao meu pai, mas isso não tornava a ausência da Lina menos incómoda. Pela primeira vez comecei a perceber que as minhas escolhas podiam entrar em conflito umas com as outras e que não havia sempre uma maneira de deixar toda a gente satisfeita.
No fundo, eu estava à espera da Lina. E, quando finalmente me dei conta disso, percebi que a questão já não era apenas a de saber onde estaria naquela noite. Era perceber até que ponto ela começava a ocupar espaço nas minhas decisões.
Quando saí do cinema, já não podia mudar o que tinha acontecido. A Lina tinha ficado à minha espera e eu não tinha aparecido. E eu sabia que, no dia seguinte, teria de lhe explicar porquê.
Comentários
Enviar um comentário