Uma espera que se complica
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 1977
De manhã, depois de me levantar, não tinha nada de especial para fazer. Acabei por ficar parado, a olhar para as horas e a ouvir música. Era uma daquelas manhãs em que o tempo parece não ter grande utilidade e em que uma pessoa vai adiando tudo apenas porque não há nada que realmente a obrigue a sair do sítio.
À tarde fui para o DIFI. Segundo o Jorge, o local teria de ser mudado, uma notícia que veio confirmar a sensação de que aquilo nunca chegava a ser um lugar definitivo. Para passar o tempo, joguei à bola com dois colegas e, às cinco horas, vim embora. Em casa ainda me entretive até às seis a encapar alguns livros, mas a verdade é que já tinha outra coisa na cabeça.
Não tinha aparecido na noite anterior. A Lina ficara à minha espera e eu não gostava da ideia de deixar aquilo sem explicação. Não queria que pensasse que tinha mudado de ideias ou que simplesmente não me importara. Saí de casa resolvido a ir esperá-la ao trabalho e pedir-lhe desculpa.
Fui para a paragem, mas quando lá cheguei percebi que já era tarde para ir ao encontro dela. Resolvi então ficar na Covilhã à espera que aparecesse. Estava ali com uma ideia bastante simples na cabeça, mas as coisas complicaram-se quando apareceu a Dila.
Ela tentou saber quem eu estava à espera. Não lhe disse. Talvez tivesse sido mais fácil responder-lhe qualquer coisa, mas não quis dar-lhe explicações. A Dila, porém, pareceu decidir descobrir por si própria e ficou por ali. Comecei a perceber o que ela estava a fazer e aquilo não me agradou. Não gosto de vinganças, nem de jogos em que uma pessoa se sente observada só para ver o que vai acontecer.
Quando a Lina finalmente apareceu, tive de deixar a Dila e fui ter com ela, um tanto contrafeito por causa de toda aquela situação. Pelo caminho expliquei-lhe quem era a Dila e disse-lhe ao que tinha ido. Queria desculpar-me pelo que acontecera na noite anterior. Não tinha faltado ao encontro por não querer vê-la. Tinha simplesmente ficado preso à palavra que dera ao meu pai.
Depois vim embora, mas a história não ficou por ali.
À noite, o Manel veio chamar-me a casa e fomos a casa da Lina. Eu ia para me encontrar com ela e ele para se encontrar com uma outra colega. Acompanhámo-las primeiro num recado e depois fomos levá-las a casa. Quando chegou a altura de me despedir da Lina, houve entre nós o beijo habitual. Fiquei ainda algum tempo com ela antes de regressar.
Era curioso como uma coisa tão pequena podia mudar o tom de um dia. Tinha passado a tarde preocupado com a ideia de que ela pudesse ter ficado ofendida comigo e acabava a noite ao lado dela, como se a explicação tivesse encontrado o seu lugar. Não sei se estava tudo resolvido. Talvez não. Mas, quando vim embora, já não trazia comigo a mesma inquietação com que tinha saído de casa horas antes.
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