O Assalto
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Sábado, 13 de Agosto de 1977
Às duas da madrugada, o meu pai acordou-me. Estavam a roubar o nosso galinheiro. Levantei-me imediatamente e saí com uns bastões. Fomos até lá e encontrámos uma parte da rede rebentada. Ainda era noite e, naquela altura, não sabíamos quem estava por ali nem se os ladrões tinham acabado de sair ou se continuavam nas proximidades. Saímos para a rua e vimos dois tipos que nos pareceram suspeitos. Falámos com eles, tentámos perceber o que andavam a fazer e, depois de uma nova busca, voltámos para casa.
Eu deitei-me novamente, mas o meu pai ficou a vigiar. Não cheguei propriamente a dormir descansado. A ideia de que alguém tinha entrado no nosso terreno e andava por ali durante a noite deixava-me atento a qualquer ruído. Perto das cinco horas, o meu pai voltou a acordar-me. Eles tinham regressado e, dessa vez, quase foram apanhados. Encontrámos outra parte da rede cortada. Depois disso voltei para a cama e só me levantei depois do meio-dia.
A noite tinha começado de uma maneira e terminado de outra. Quando finalmente me levantei, ainda trazia comigo aquela sensação estranha de ter passado algumas horas entre o sono e a vigilância, como se a casa tivesse deixado de ser completamente segura. Mas o dia continuava e não havia tempo para ficar a pensar muito nisso.
À tarde, o Manuel e o Victor vieram chamar-me e fomos para a biblioteca. A meio da tarde vim a casa lanchar e depois fui para o ensaio. Quando acabou, estive com a Lina e acompanhei-a ao sapateiro. Foi um daqueles momentos simples em que me bastava estar com ela. Depois de uma noite tão agitada, a sua presença tinha um efeito quase tranquilizador. Não precisávamos de fazer nada de especial. Bastava caminhar juntos e conversar.
À noite, o Manuel veio chamar-me para irmos ter com a Teresa e a Lina. A ideia era acompanhá-las depois numa procissão, mas a Lina acabou por não ir. Eu também não fui. Mais tarde acompanhei-a a casa e despedimo-nos com um beijo. Depois vim embora com o Manuel, que ainda passou por minha casa e ficou a ver televisão.
Foi um dia estranho, começado no meio da noite com a ameaça de uns ladrões e terminado de uma forma muito mais tranquila. Talvez o que mais me tenha ficado não tenha sido sequer o susto do galinheiro, mas a sensação de como as coisas podem mudar completamente de uma hora para outra. De madrugada estava armado com um bastão à procura de desconhecidos. À noite, caminhava ao lado da Lina e preocupava-me apenas com o momento de despedir-me dela.
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