Uma escolha pouco racional

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Sexta-feira, 12 de Agosto de 1977

De manhã levantei-me para tomar conta da criança de quem a minha mãe é ama. Fiquei com ela até à hora do almoço. Era uma criança adorável e a mãe também me causava uma boa impressão. A manhã passou depressa, ocupada com aquela tarefa que, apesar de inesperada, não me custou fazer.

À tarde fui para o centro. Estive por lá a conversar com alguns colegas e a ler. Às cinco e meia vim embora, cheguei a casa, lanchei e deitei-me um pouco. Às sete e meia apareceu o Manel para me chamar. Queria que o acompanhasse a uma hora de meditação nas instalações do padre.

Fui.

A verdade é que não fui propriamente convencido pelo que ouvi. Durante aquela hora, senti-me quase massacrado pela ideia de que pessoas que se consideravam racionais podiam aceitar sem questionar coisas que, para mim, pertenciam a outro tempo. A religião continuava a levantar-me mais perguntas do que respostas. Não conseguia compreender como, no século XX, depois de tudo aquilo que a ciência nos tinha mostrado, tanta gente pudesse aceitar determinadas histórias como verdades absolutas.

E, no entanto, havia uma contradição em mim que eu não conseguia ignorar. Eu estava ali por causa da Lina.

Não ia à igreja por prazer. Ia porque começava a sentir por ela algo mais forte do que uma simples paixão e porque ela me pedia que a acompanhasse. Se era esse o preço para estar perto dela, estava disposto a pagá-lo. Talvez não fosse uma razão muito racional, mas naquele momento não me preocupava muito com isso.

Mais tarde, o Manel apareceu para treinarmos. Estávamos a meio do treino quando o Victor chegou com a notícia de que a Lina estava ali perto, mais a baixo de minha casa. Deixei imediatamente o treino e fui ter com ela. Pedi-lhe que ficássemos um pouco a sós. Tinha chegado a pensar que ela pudesse estar zangada comigo por eu lhe ter falado tão pouco na terça-feira, mas essa impressão desapareceu assim que começámos a conversar.

Ela estava com pressa e não pudemos ficar muito tempo juntos. Despedimo-nos com um beijo. Ainda soube por ela que a irmã já se tinha reconciliado comigo, o que me deixou mais tranquilo.

Depois voltei para o treino e fiquei até mais tarde.

Quando finalmente terminei, fiquei a pensar naquilo que tinha feito naquela noite. Tinha passado uma hora a ouvir coisas com que discordava profundamente e, pouco depois, abandonara o treino mal soube que a Lina estava perto. Talvez houvesse em mim mais irracionalidade do que eu gostava de admitir.

Mas, naquele momento, não me arrependia.


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