O silêncio cresce sozinho
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Quinta-feira, 26 de Maio de 1977
Acordei cedo.
Dormira mal.
Sempre que fechava os olhos voltava à conversa da manhã anterior.
Ou, mais exactamente, à conversa que nunca chegara verdadeiramente a existir.
Preparei-me para sair e caminhei até à paragem.
Não procurei a Dila.
Também não a evitei.
Limitei-me a esperar o trólei.
Quando entrei, vi-a alguns lugares mais à frente.
Durante alguns segundos pensei em aproximar-me.
Não para desfazer o que acontecera.
Apenas para lhe dizer qualquer coisa.
Um simples "bom dia" talvez bastasse para quebrar aquele silêncio que, de repente, parecia muito maior do que ambos.
Mas não me mexi.
Sentei-me onde estava.
Ela também não se aproximou.
O trólei avançava pelas ruas enquanto os passageiros conversavam, liam o jornal ou olhavam distraidamente pela janela.
Para toda a gente era apenas mais uma viagem.
Para nós, cada minuto de silêncio parecia aumentar a distância que nos separava.
Quando chegámos ao Porto, seguimos em direcções diferentes.
Sem uma palavra.
Sem um gesto.
Sem sequer um olhar que pudesse significar alguma coisa.
As aulas decorreram normalmente.
Tive uma composição e um exercício que me obrigaram a manter a atenção na matéria. Durante algumas horas consegui esquecer-me do resto.
Ao almoço permaneci na cantina.
À minha volta falava-se dos exames, das férias que se aproximavam e dos passeios de fim de ano.
Participei na conversa quando era necessário.
Sorri até.
Mas havia qualquer coisa dentro de mim que permanecia imóvel.
No princípio da tarde fui a casa de um colega, em Gondomar.
Passámos várias horas a passear de bicicleta.
Pedalámos sem destino, conversando sobre os assuntos habituais.
Foi uma tarde agradável.
E, no entanto, havia momentos em que, sem qualquer razão aparente, a minha cabeça regressava sempre ao mesmo lugar.
Começava finalmente a perceber uma coisa.
O silêncio não resolvia os problemas.
Limitava-se a adiá-los.
E, quanto mais tempo passava, mais difícil parecia encontrar as palavras certas.
Regressei a casa já depois das sete horas.
Jantei com a família e, mais tarde, sentei-me diante da televisão.
As imagens sucediam-se no ecrã, mas mal lhes prestava atenção.
Ao deitar-me, dei por mim a pensar que, talvez sem querer, tinha começado uma luta entre duas forças que pareciam igualmente teimosas.
O meu orgulho dizia-me para continuar calado.
O resto de mim começava, muito devagar, a perguntar se aquele silêncio valeria realmente a pena.
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