A Última Ponte
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Quarta-feira, 25 de Maio de 1977
Naquela manhã saí de casa como em todas as outras.
Já não evitava a paragem onde a Dila costumava esperar. Também não a procurava. Limitava-me a deixar que os dias corressem, convencido de que a distância resolveria aquilo que eu próprio provocara.
Quando cheguei ao Porto, caminhava em direcção ao meu liceu, perdido nos pensamentos de sempre, quando ouvi passos apressados atrás de mim.
— António...
Reconheci-lhe imediatamente a voz.
Parei.
Voltei-me devagar.
Ela aproximou-se, quase sem fôlego. Não havia irritação no seu rosto. Havia apenas uma expressão que nunca lhe tinha visto, uma mistura de inquietação e tristeza.
Durante alguns segundos nenhum de nós falou.
Era estranho estarmos tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
— Porque é que estás assim comigo?
A pergunta era simples.
Tão simples que me desarmou.
Durante dias imaginara aquele encontro. Pensara em tudo o que lhe diria se um dia viesse pedir explicações. Repetira mentalmente argumentos, justificações, frases que defendessem o meu orgulho ferido.
Mas, naquele instante, nenhuma delas me pareceu suficiente.
Porque, no fundo, nem eu próprio sabia explicar o que me acontecera.
Sabia apenas que me sentira magoado.
E que, desde então, transformara essa mágoa numa muralha.
Olhei-a nos olhos.
Vi neles uma esperança discreta. Não a esperança de ter razão. Apenas a esperança de que ainda fosse possível compreender-nos.
Bastava uma palavra.
Uma única palavra.
Em vez disso, respondi:
— Não sei que explicações te posso dar.
Disse-o calmamente.
Sem levantar a voz.
Sem dureza aparente.
Mas há frases que ferem precisamente por serem ditas sem emoção.
Ela permaneceu imóvel durante alguns instantes.
Os olhos baixaram lentamente.
Não insistiu.
Talvez tivesse percebido que qualquer nova pergunta encontraria o mesmo silêncio.
Talvez tivesse simplesmente perdido a coragem.
Voltou-se lentamente e afastou-se sem dizer mais nada.
Não olhou para trás.
Fiquei a vê-la caminhar até desaparecer entre os outros estudantes.
Ainda dei um passo, quase sem pensar.
Quis chamá-la.
O nome dela chegou-me aos lábios.
Mas o orgulho voltou a ser mais forte.
Continuei caminho para o meu liceu.
As aulas passaram sem que lhes prestasse verdadeira atenção.
Ao almoço permaneci na cantina, rodeado de colegas que conversavam animadamente sobre exames, férias e projectos para o Verão.
Eu respondia quando me dirigiam a palavra.
Sorria quando era necessário.
Mas continuava preso àquela breve conversa da manhã.
Ou, melhor dizendo, à conversa que eu impedira de acontecer.
Durante a tarde fui estudar para a Biblioteca Municipal com um colega.
Mantive os livros abertos diante de mim durante horas.
Li páginas inteiras.
No entanto, quando fechava um livro, não conseguia recordar o que acabara de ler.
Regressei a casa perto das oito horas.
Jantei com a família.
Mais tarde sentei-me diante da televisão, mas as imagens passavam sem que eu lhes prestasse atenção.
Naquela noite deitei-me convencido de que tinha feito o que era certo.
Ela quis uma explicação.
Eu não fui capaz de lha dar.
Talvez porque nem eu próprio compreendesse aquilo que sentia.
Limitei-me a fechar-me ainda mais dentro de mim.
E, pela primeira vez desde que a conhecia, ocorreu-me que havia silêncios dos quais talvez já não conseguíssemos voltar.
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