Em círculos
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Terça-feira, 24 de Maio de 1977
Hoje acordei cedo.
Enquanto me preparava para sair, ocorreu-me que os últimos dias tinham passado quase sem dar por isso.
A semana anterior parecia já distante.
E, no entanto, bastava pensar durante alguns segundos para tudo voltar à memória.
Apanhei o trólei e segui para o liceu.
Durante a viagem procurei concentrar-me na paisagem que desfilava para lá dos vidros.
Gostava de observar as ruas, as pessoas e o movimento da cidade.
Era uma maneira de deixar os pensamentos seguir outro caminho.
As aulas decorreram normalmente.
Escrevi apontamentos, participei quando os professores me chamavam e conversei com alguns colegas durante os intervalos.
Por fora, nada denunciava a inquietação que ainda trazia comigo.
Começava, porém, a sentir uma estranha fadiga.
Não era do estudo.
Nem das aulas.
Era de pensar sempre nas mesmas coisas.
Sempre que julgava ter encontrado uma resposta, surgia outra pergunta.
E acabava exactamente no mesmo lugar.
Perguntei-me quantas vezes tinha revivido aquele instante da chuva.
Já lhes perdera a conta.
Talvez nenhuma dessas recordações mudasse realmente o que acontecera.
Talvez apenas me impedissem de olhar para a frente.
A ideia ficou comigo durante algum tempo.
Não porque me tivesse convencido.
Mas porque, pela primeira vez, comecei a sentir que continuar preso às mesmas perguntas também era uma forma de lhes dar demasiado poder.
Quando as aulas terminaram, regressei a casa.
Passei a tarde entre os livros e alguns assuntos do DIFI.
Enquanto trabalhava, a cabeça sossegava.
Era como se cada tarefa concluída afastasse, por instantes, o ruído que trazia dentro de mim.
Ao deitar-me, ocorreu-me uma última reflexão.
Talvez houvesse perguntas que nunca encontrassem resposta.
Mas isso não significava que eu pudesse deixar de viver à espera delas.
Adormeci sem saber que caminho iria seguir.
Sabia apenas que continuava parado no mesmo lugar.
Comentários
Enviar um comentário