Cada dia que passava
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Segunda-feira, 23 de Maio de 1977
Hoje a semana começou como tantas outras.
Levantei-me cedo, preparei-me para sair e caminhei até à paragem do trólei.
Enquanto esperava, dei por mim a recordar como, poucas semanas antes, aquela espera nunca me parecia longa.
Havia sempre alguém com quem conversar.
Agora limitava-me a olhar para a rua e para os carros, à espera que o trólei aparecesse.
Cheguei ao liceu e procurei concentrar-me nas aulas.
A manhã decorreu sem sobressaltos.
Os professores explicavam a matéria, os colegas conversavam nos intervalos e tudo parecia decorrer dentro da mais absoluta normalidade.
Só dentro de mim persistia uma sensação que não encontrava lugar.
Desde o dia em que nos cruzáramos sem trocar uma única palavra, uma ideia voltava repetidamente ao meu pensamento.
Talvez tivesse sido aquele o momento certo para falar.
Talvez bastasse um cumprimento.
Talvez bastasse perguntar como estava.
Agora já não sabia.
Cada dia que passava tornava o silêncio um pouco maior.
E quanto maior ele se tornava, mais difícil parecia quebrá-lo.
Ao princípio pensei que estava apenas à espera do momento certo.
Começava, porém, a suspeitar de que esse momento talvez nunca chegasse por si.
Era preciso que alguém desse o primeiro passo.
Mas eu continuava sem saber se era capaz de o dar.
Quando terminaram as aulas, regressei a casa.
Passei parte da tarde a estudar e, mais tarde, ocupei-me de alguns assuntos do DIFI.
Enquanto trabalhava, conseguia esquecer tudo o resto.
Mas bastava terminar uma tarefa para o pensamento regressar ao mesmo ponto.
Não ao que acontecera.
Ao que continuava por acontecer.
Ao deitar-me, ocorreu-me uma ideia que me acompanhou durante muito tempo antes de adormecer.
Talvez o silêncio não crescesse sozinho.
Talvez fôssemos nós que o alimentávamos, sempre que deixávamos passar mais um dia sem dizer aquilo que devia ser dito.
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