Prólogo - Julho de 1977 - Volume IV
O Que Começa a Mudar
Julho encontra António mais ocupado do que algumas semanas antes.
Os dias têm agora uma rotina diferente. Há ginástica, Academia, ensaios, reuniões, encontros no adro da igreja e cada vez mais tempo passado com os colegas. O Manel está quase sempre por perto e, através dele, António vai conhecendo outras pessoas e entrando em ambientes que ainda há pouco tempo não faziam parte da sua vida.
Mas há uma coisa que merece atenção.
No primeiro dia do mês, António vai ao DIFI e encontra um bilhete a anunciar a demissão de quatro elementos. Fica pensativo. Não é ainda uma grande ruptura para ele, mas é um sinal de que aquele grupo, que até então parecia relativamente estável, começa a perder a forma que tinha.
Ao mesmo tempo, acontece o contrário noutras partes da sua vida.
António aproxima-se de colegas com quem passa tardes inteiras a conversar. Surge a ideia de formar um grupo de teatro. Os encontros no adro da igreja tornam-se frequentes. Fala-se de amizade, de diferenças dentro dos próprios grupos e do lugar que cada um ocupa entre os outros.
É uma mudança que não precisa de ser explicada a António.
Ele simplesmente vive-a.
Tem dezassete anos e começa a descobrir que as amizades também têm os seus equilíbrios, as suas preferências e as suas pequenas injustiças. Algumas pessoas aproximam-se. Outras ficam mais distantes. Umas interessam-lhe mais do que outras. E, entretanto, começam a surgir nomes que ainda parecem ocasionais, mas que vão aparecer novamente.
É aqui que o leitor deve prestar atenção.
Não a um acontecimento específico, mas à quantidade de pessoas que começa a entrar nestes dias.
Até agora, muitas das experiências de António estavam concentradas num número relativamente pequeno de relações. Agora o círculo alarga-se. E quando isso acontece, também muda a maneira como ele próprio se vê.
Começa a comparar-se.
Começa a observar.
Começa a perceber melhor as diferenças entre amizade, companhia, proximidade e interesse.
Ainda não tem respostas para essas diferenças.
Nem precisa de as ter.
Há coisas que só ganham significado depois de serem vividas.
Julho é, por isso, um mês de aproximações.
Algumas serão breves.
Outras irão durar mais do que António imagina.
E haverá pelo menos uma que, quando finalmente ganhar o seu verdadeiro significado, fará com que estes primeiros dias sejam vistos de outra maneira.
Por enquanto, há apenas pessoas.
E António começa a reparar nelas.
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