Prólogo - Setembro de 1977

Quando o Verão começa a ficar para trás

Setembro chega devagar.

Ainda há dias de férias, tardes passadas em casa, música a tocar na sala e encontros que prolongam o Verão. Mas alguma coisa começa a mudar. Não é ainda uma mudança visível. O liceu aproxima-se, a rotina espera à porta e António continua mergulhado nas pequenas ocupações que lhe preenchem os dias.

Depois de um Agosto em que a presença de Lina se tornou cada vez mais importante, Setembro encontra António num território emocional que ele próprio ainda não sabe definir. A relação entre os dois continua feita de aproximações e hesitações. Há encontros, conversas e beijos, mas também há uma distância que não desaparece simplesmente porque existe afecto. O que António sente começa a ganhar intensidade, embora ainda lhe faltem as palavras para compreender exactamente aquilo que está a acontecer.

Ao mesmo tempo, outras pessoas começam a ocupar um espaço crescente à sua volta. Victor, Manel, Cristóvão, Rui e outros colegas aparecem com frequência. Vão buscá-lo, acompanham-no, procuram a sua companhia ou simplesmente passam pela sua casa. António, que tantas vezes parece ser aquele que espera que os outros o procurem, começa a tornar-se um ponto de encontro. Ainda não sabemos o que isso significa na formação da sua personalidade, mas o movimento está lá.

Há também a Academia. O treino deixa de ser apenas uma ocupação de Verão e passa a fazer parte da rotina. António estuda, pratica, ensina e procura aperfeiçoar aquilo que está a aprender. A disciplina física começa a coexistir com uma vida interior que se torna progressivamente mais inquieta.

E há a escrita.

Por enquanto, ela ainda é sobretudo o registo dos dias. António escreve porque se comprometeu a escrever todas as noites, mesmo quando nada parece acontecer. Mas Setembro começa precisamente com esse problema. As manhãs são longas, as tardes repetem-se, a televisão serve de referência para medir as horas e a monotonia começa a pesar. No dia 15, essa sensação chegará a um ponto em que António pensará mesmo em abandonar o diário.

Só que o diário ainda não terminou de revelar aquilo que guarda.

Setembro terá momentos de aparente banalidade e outros em que a personalidade de António começará a mostrar-se com uma nitidez inesperada. Haverá conversas, encontros, dúvidas, aproximações e conflitos. E, no meio dessa rotina que por vezes parece não levar a parte alguma, surgirá um dia que fará deste mês muito mais do que uma simples passagem entre o Verão e o regresso às aulas.

Nós sabemos que esse dia existe.

António, naquele momento, ainda não.

E talvez seja essa a beleza involuntária deste diário. Enquanto o adolescente escreve sem saber onde a sua própria história o conduz, nós podemos acompanhar, passo a passo, o nascimento de alguma coisa que já estava dentro dele.

Setembro começa assim.

Com o Verão ainda presente, mas já a desaparecer.

E com António prestes a descobrir que há mudanças que começam justamente quando julgamos que nada está a acontecer.


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