Entre música e dor

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Quinta-feira, 1 de Setembro de 1977

Levanto-me tarde, como já é habitual nestes dias em que as manhãs parecem não ter pressa de começar. Depois do pequeno-almoço vou para a sala e entrego-me à leitura de poesias, deixando que as palavras e a música preencham o tempo. Há qualquer coisa de reconfortante nestas horas passadas assim, quase isolado do resto do mundo, entre os versos que leio e os sons que escolho ouvir. Durante a tarde continuo na sala. Ouço música e faço gravações, atento às cassetes e às canções que quero guardar. O tempo passa sem grandes acontecimentos e, perto do fim da tarde, o Manel faz-me companhia. A sua presença quebra um pouco a solidão tranquila em que tenho estado mergulhado. À noite treino com o Victor, o Manel e as minhas irmãs. Ou melhor, tento treinar, porque o meu braço continua cada vez pior e quase não me deixa fazer aquilo que quero. A dor começa a impor-me limites que não aceito de bom grado. Fico reduzido a assistir ou a participar muito pouco, e isso irrita-me mais do que talvez queira admitir. Antes de deitar-me, a minha mãe coloca-me pensos de água quente no braço e o meu pai faz-me uma massagem. Fico assim, entregue aos cuidados deles, enquanto penso que esta maldita dor parece não ter intenção nenhuma de me deixar em paz. O dia termina quase como começou, em casa, entre música, palavras e pensamentos. Só que agora há também esta dor que, pouco a pouco, começa a ocupar demasiado espaço na minha vida.


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