Quando o coração cai aos pés

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Sexta-feira, 2 de Setembro de 1977

Levantei-me de manhã a tempo de tomar o pequeno-almoço e, pouco depois, já estava novamente à mesa para almoçar. O dia começou sem nada que o distinguisse dos outros, mas haveria de mudar de tom à medida que as horas fossem passando.
Durante a tarde, enquanto fazia os preparativos para arranjar o meu sofá-cama, o Victor apareceu na minha casa. Aquilo surpreendeu-me, pois não era habitual aparecer assim durante a tarde, uma vez que trabalhava na oficina do pai. Mais tarde, quando saímos para fazer uma pequena caminhada a pé, contou-me o que se tinha passado. Tivera uma discussão em casa com a mãe e saíra de lá para se afastar um pouco daquela situação. Ouvi-o calado. Não sabia muito bem o que lhe dizer perante aquela tristeza que trazia consigo. Há momentos em que as palavras, em vez de ajudarem, parecem apenas ocupar o espaço que o outro precisa para respirar. Preferi acompanhá-lo e trouxe-o novamente para a minha casa, tentando proporcionar-lhe algumas horas em que pudesse esquecer o que acontecera. Propus-lhe jogarmos às cartas e ele acabou por se entreter durante cerca de uma hora. Depois lanchou comigo e acompanhou-me até à paragem quando tive de partir para a Academia. Ia com o coração palpitante. Talvez pela expectativa do treino, talvez pelo simples facto de sair de casa e entrar na rotina que ainda me ligava àquele lugar. Mas, quando cheguei à Academia, o coração que levava tão cheio de expectativa caiu-me aos pés. Tinham aumentado a mensalidade para 300$00 e, em simultâneo, reduzido o treino para uma hora, duas vezes por semana. Fiquei triste. Não era apenas pelo treino. Pensava no meu pai, no pouco que ganhava e na ameaça de ser despedido. Mais dinheiro para a Academia significava mais uma preocupação em casa, e eu não conseguia deixar de pensar nisso. O entusiasmo com que tinha chegado desapareceu de repente, substituído por uma espécie de desalento que me acompanhou no regresso. Como se o dia ainda quisesse complicar-me a vida, o trólei avariou e cheguei mais tarde. O Manel e o Victor estavam à minha espera e, pelo caminho, encontrei a Lina, que se dirigia para a festa. Vim jantar a casa e, depois, fui ter com ela. Fiquei com ela até à meia-noite e, quando chegou a hora de a levar a casa, seguimos até lá. A irmã continuava vigilante, sempre atenta aos nossos movimentos, como se tivesse assumido para si a missão de descobrir qualquer coisa que depois pudesse contar à mãe. Foi preciso esperar por um momento de distracção. Quando finalmente surgiu, beijei a Lina e vim embora. O Victor, entretanto, não foi para casa. Fiquei com a sensação de que o dia tinha sido feito de coisas muito diferentes. Começara sem importância, passara pela tristeza do Victor, trouxera-me uma preocupação nova com a Academia e acabara junto da Lina, num instante breve que, apesar de tudo, tinha conseguido apagar por momentos o resto. Talvez fosse essa a estranha maneira que a vida tinha de equilibrar as coisas. Quando uma porta se fechava, outra abria-se apenas o suficiente para deixar entrar alguma luz.



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