Prólogo - Junho de 1977 - Volume 4
A Porta Entreaberta
Há momentos na vida em que não percebemos, no instante em que acontecem, que alguma coisa ficou para trás.
Continuamos a caminhar pelos mesmos lugares, encontramos as mesmas pessoas, fazemos as mesmas coisas. Acordamos, tomamos o pequeno-almoço, saímos de casa, regressamos ao fim do dia. Tudo parece continuar igual.
Mas não continua.
Alguma coisa mudou.
Às vezes é uma pessoa que se afasta.
Outras vezes somos nós que começamos, sem dar por isso, a olhar para o mundo de outra maneira.
Os últimos anos foram feitos de descobertas que eu, naquele tempo, ainda não sabia compreender. Aprendi a gostar, a esperar, a ter esperança e também a sofrer. Conheci a alegria de estar perto de alguém e conheci o vazio que fica quando essa proximidade se desfaz.
Dila foi uma parte importante desse caminho.
Com ela descobri sentimentos que até então desconhecia. Descobri também que gostar não chega. Que duas pessoas podem aproximar-se e, ainda assim, não conseguirem permanecer juntas. Que há palavras que magoam, silêncios que pesam e erros que, depois de cometidos, não desaparecem simplesmente porque desejamos que desapareçam.
O fim desse tempo deixou marcas.
Ainda não sabia quais delas ficariam para sempre.
Sabia apenas que já não era o mesmo rapaz que começara a escrever aqueles primeiros dias.
E havia o Manel.
Desde o princípio estivera por perto.
Foi ele quem me levou até Dila. Foi ele quem procurou aproximar-nos, quem tentou manter-nos juntos e quem, mesmo quando eu próprio não percebia bem o que estava a perder, continuou a estar presente.
Só mais tarde começaria a compreender o valor dessa amizade.
Agora, quando um ciclo chegava ao fim, era também ele quem estava ali.
O seu aniversário, a 20 de Junho, pareceu-me então apenas mais um acontecimento entre tantos outros.
Hoje sei que não foi.
Foi uma espécie de marco.
Uma porta entreaberta.
Depois dele começaram a surgir outras pessoas, outros lugares, outras conversas e outras formas de ocupar os dias. Comecei a sair mais. A conviver com outros jovens. A entrar em ambientes que, pouco tempo antes, me seriam estranhos. Até a igreja, que tantas vezes tinha visto de fora com desconfiança, começou a fazer parte dos meus caminhos.
O Manel não desistiu de me puxar para a vida.
Talvez ele soubesse que eu precisava disso antes de eu próprio o saber.
Eu ainda trazia comigo muitas coisas do passado.
Mas começava a haver espaço para outras.
E é assim que começa este novo volume.
Não com uma grande mudança.
Não com uma decisão que tudo transforma de repente.
Começa devagar.
Com uma amizade que se torna mais presente.
Com novos companheiros.
Com novos lugares.
Com a vontade de sair de casa e deixar para trás, ainda que por algumas horas, aquilo que me pesava.
Começa com a sensação de que talvez a vida não tivesse terminado no lugar onde eu pensava que terminara.
Talvez houvesse outros caminhos.
Eu ainda não sabia quais.
Ainda não sabia que alguns me levariam a lugares onde nunca imaginara chegar.
Nem sabia que algumas das pessoas que agora entravam na minha vida iriam deixar marcas tão profundas como aquelas que eu julgava já ter deixado para trás.
Naquele momento, apenas caminhava.
E, às vezes, é assim que uma nova etapa começa.
Não sabemos para onde vamos.
Sabemos apenas que já não queremos ficar exactamente onde estávamos.
A porta estava aberta.
E eu comecei a atravessá-la.
Comentários
Enviar um comentário