Quando escrever já não é apenas vontade
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 1977
Quero escrever.
Tenho vontade de escrever, sinto que deveria pegar na caneta e pôr qualquer coisa no papel. E, no entanto, quando chega o momento, não sei sobre o quê.
Fico diante da folha e parece que as palavras desapareceram.
Talvez este desejo de escrever seja mais hábito do que verdadeira vontade. Já me habituei a terminar o dia assim. Durante algum tempo, escrever foi uma maneira de guardar aquilo que acontecia comigo. Agora tornou-se quase uma obrigação que eu próprio me imponho. O dia acaba e, antes de me deitar, tenho de escrever.
Mesmo quando não tenho nada para dizer.
É estranho.
Tenho vontade de dormir. Estou cansado e apetecia-me simplesmente deitar-me, apagar a luz e deixar o dia acabar. Mas sei que não seria capaz de o fazer sem escrever qualquer coisa.
É como se tivesse criado uma dependência.
Pensei até no vício de um drogado. Não pelo prazer da escrita, naturalmente, mas pela necessidade de repetir uma coisa mesmo quando já não existe uma razão evidente para o fazer. Um homem pode procurar a droga para esquecer problemas familiares, problemas de amor, para fugir de qualquer coisa ou até por uma vontade de fazer mal a si próprio. O motivo pode ser diferente, mas existe sempre aquela necessidade de voltar ao mesmo.
Talvez comigo seja assim. Escrevo para não deixar o dia desaparecer. Mesmo quando o dia não teve nada de especial.
Talvez amanhã volte a ter alguma coisa para contar. Hoje, porém, as palavras parecem ter chegado ao fim antes de mim.
É tudo.
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