Um Dia de Praia Muito Agradável

Quinta-feira, 21 de Julho de 1977

Mas que noite.

Esta foi a segunda noite de que me lembro em que praticamente não dormi. Adormeci às seis e vinte e acordei às sete menos dez. Pouco mais de meia hora de sono.

A razão foi a praia.

Na noite anterior, o Victor tinha-me convidado para ir com ele, com os pais da Lina e com algumas colegas. Fiquei logo com vontade de ir, mas a minha mãe insistia em que eu acompanhasse a minha irmã à procura de emprego numa escola.

Levantei-me cedo e fui ter com o Victor. Pedi-lhe que fosse mais tarde comigo.

Aceitou.

Uma hora depois já estávamos a caminho da praia.

Não demorámos muito a encontrar a Lina e os outros. A manhã passou entre jogos e brincadeiras, sem grandes preocupações. No almoço, a mãe da Lina serviu-se da barraca e depois deixou-nos ficar com ela.

Durante a tarde fizemos um passeio, jogámos mais alguns jogos e fomos tomar banho. Depois do banho lanchámos.

A mãe da Lina foi muito prestável comigo. Deu-se bem comigo, mesmo depois de saber quais eram as minhas intenções. Isso deixou-me satisfeito.

Mas hoje houve qualquer coisa diferente.

Talvez só agora, ao escrever, consiga perceber o que foi.

Durante o dia dei por mim a reparar na Lina de uma maneira que antes não tinha acontecido. Não era apenas a vontade de estar junto dela. Nem era apenas aquilo que já vinha sentindo desde os primeiros beijos.

Era outra coisa.

Comecei a reparar nela como mulher.

Até hoje, quando pensava na Lina, pensava na amiga que se aproximara de mim, na rapariga com quem passeava, conversava e trocava beijos. Hoje, por momentos, o meu olhar foi diferente. O seu corpo, a maneira como se movia, a proximidade entre nós começaram a despertar em mim uma sensação nova.

Não sei se ela percebeu.

Talvez tenha percebido.

Também não sei se fez alguma coisa de propósito ou se fui eu que, simplesmente, comecei a olhar de outra maneira.

Sei apenas que aquela descoberta ficou comigo.

Às sete horas viemos embora.

A Lina preferiu acompanhar-nos nas peripécias dos STCP em vez de seguir com os pais. Acompanhei-a a casa, peguei na toalha e vim embora.

À noite o CONTRAPOR reuniu-se novamente.

Às onze horas fomos esperar as «meninas». Levámos uma delas a casa e despedi-me da Lina com um beijo prolongado.

Depois fui continuar a ensaiar com o Manel e o Zé Carlos.

Quando finalmente cheguei a casa, estava cansado. Mas o sono não veio.

Fiquei deitado no escuro a pensar no dia.

A praia, os jogos, o passeio, o banho, o lanche. Tudo aquilo que, visto de fora, poderia parecer igual a tantos outros dias de férias.

Mas para mim não foi igual.

Conheci melhor a mãe da Lina. Passei quase todo o dia com ela. E descobri em mim uma coisa que até hoje nunca tinha sentido daquela maneira.

É estranho.

Há momentos em que uma pessoa muda diante dos nossos olhos sem que ela própria tenha mudado.

Talvez tenha sido eu que mudei.

Até agora tinha sido fácil dizer que gostava da Lina. Depois dos últimos dias, até isso começava a parecer natural. Mas aquilo que senti hoje já não cabe inteiramente nessa explicação.

Penso nela e lembro-me dos beijos.

Mas agora lembro-me também de outras coisas que durante o dia me chamaram a atenção e que, esta noite, voltam à minha cabeça de outra maneira.

Não quero exagerar o que aconteceu.

Também não quero fingir que não aconteceu.

Talvez seja esta a parte mais estranha de começar a gostar de alguém. Descobrimos que a pessoa que está diante de nós pode ser vista de muitas maneiras diferentes e que algumas delas ainda não conhecíamos.

Fiquei a pensar nisso durante muito tempo.

Amanhã, provavelmente, tudo continuará como antes.

Ou talvez não.

Neste momento, deitado no silêncio do quarto, já não tenho tanta certeza.




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