A Falta que se Sente
Quarta-feira, 20 de Julho de 1977
O meu sono acabou às oito horas, contra a minha vontade.
Levantei-me e fui com o meu pai, de motorizada, ao liceu. Ao passarmos pela Covilhã vi a Lina. Foi apenas por um instante, mas dei por mim a reparar nela antes de continuar o caminho.
Matriculei-me, fui ao registo e vim embora.
A manhã ficou por ali.
De tarde aconteceu uma coisa que me surpreendeu a mim próprio.
O Manel não apareceu em minha casa.
E eu aborreci-me.
Mais do que esperava.
Para passar o tempo, deitei-me a dormir. Mas, antes de adormecer, fiquei a pensar naquilo. Não tinha acontecido nada de especial. O Manel simplesmente não tinha aparecido. E, no entanto, a tarde pareceu-me diferente por causa disso.
Talvez porque já me habituei à presença dele.
Há pessoas que entram nos nossos dias de uma forma tão natural que deixamos de reparar naquilo que significam. Só quando não aparecem é que percebemos o espaço que costumam ocupar.
Foi isso que senti hoje.
Uma ausência pequena a alterar o meu dia inteiro.
À noite, o nosso grupo reuniu-se em casa do Manel. Finalmente demos um nome ao grupo:
CONTRAPOR. Um nome que mostrava o quanto estávamos contra o grupo coral da igreja. Os meninos "lindos", como lhes chamávamos.
Ensaiámos até às onze horas.
Depois fomos esperar as raparigas.
Fizemos o percurso de sempre e, como tem acontecido nestes últimos dias, eu e a Lina acabámos muitas vezes juntos. Caminhámos lado a lado, conversámos e, por alguns momentos, o resto do grupo parecia ficar para trás.
Ainda há poucos dias eu tentava convencer-me de que aquilo era apenas amizade.
Agora já não penso tanto nisso.
Talvez porque já não consiga olhar para a Lina exactamente da mesma maneira.
Não sei quando começou a mudar.
Talvez tenha sido naquele primeiro beijo.
Talvez tenha começado antes e eu só tenha percebido depois.
Ou talvez não tenha havido nenhum momento exacto. Talvez tenha sido simplesmente a soma destes dias todos. O anel. As mãos dadas. Os beijos. Os caminhos feitos juntos. A espera. A vontade de a encontrar.
As coisas pequenas vão-se juntando.
E, quando damos por isso, já não são pequenas.
Hoje percebi também outra coisa.
Senti a falta do Manel.
E essa falta fez-me pensar que algumas pessoas começam a fazer parte dos nossos dias de tal maneira que a sua ausência se torna imediatamente visível.
Talvez seja isso que está a acontecer com a Lina.
Ainda não sei.
Mas já começo a perceber uma coisa que há pouco tempo não imaginava.
Posso sentir a falta de alguém mesmo antes de essa pessoa se afastar.
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