A Frágil Linha de um Instante

Quinta-feira, 6 de Abril de 1978

A minha irmã chegou hoje de madrugada, machucada. Só de manhã soube que tinha partido um braço.

Vinha do Porto a conduzir um Mini. Não tem carta e, ao que soube, numa curva entrou com demasiada velocidade. Não muito longe daqui, perdeu o controlo e aconteceu tudo num instante.

Truz!

Foi contra um poste.

O carro sofreu grandes prejuízos. A minha irmã ficou com um braço partido e o colega que a acompanhava quase saiu pela frente do carro, ficando todo em sangue. À primeira vista parecia que o caso dele era o mais grave, mas as aparências enganam. Acabou por ser a minha irmã quem ficou pior.

Há qualquer coisa de estranho nos acidentes. Tudo acontece demasiado depressa para que alguém consiga pensar no que está a acontecer e, quando termina, ficam os estragos, as feridas e aquela sensação de que tudo podia ter sido ainda pior.

E ainda havia outra coisa.

O carro não era de nenhum deles. Era da Milita.

Para ela, pelos vistos, não foi uma grande perda ficar sem o carro daquela maneira. Depois de tudo o que aconteceu, isso acaba quase por parecer um pormenor.

Mas não é.

Um carro pode ser substituído. Um braço parte-se e pode voltar a sarar. O susto, esse, fica mais tempo.

Hoje fiquei a pensar nisso. Há dias em que uma pessoa passa demasiado perto de uma desgraça sem sequer ter tempo de perceber a distância a que esteve dela.

E talvez só depois consiga olhar para o que aconteceu e agradecer por não ter sido pior.



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