Eis o fracasso que sou…
Quarta-feira, 5 de Abril de 1978
Hoje vi a Lina com o antigo namorado.
Pelo menos foi isso que o Manel me disse. Segundo ele, estavam de braço enfiado. Eu não vi. Talvez seja uma diferença importante, embora, neste momento, não me pareça que faça grande diferença aquilo que vi ou aquilo que me disseram.
A notícia chegou até mim e bastou.
Eis o fracasso que eu sou.
Um derrotado. Vinho depois de ter sido uva, noite depois de ter sido dia. A minha vida parece feita destas transformações, como se aquilo que começa cheio de promessa acabasse sempre por perder qualquer coisa pelo caminho.
Às vezes penso na minha vida como numa balança. Os pesos mudam constantemente de lado e nunca consigo encontrar um equilíbrio que dure. Quando parece que alguma coisa finalmente se endireita, há sempre outra que vem desequilibrar tudo.
Será mesmo assim?
Sou tratado com amor e dedicação no início. Depois vêem-me crescer, acompanham a minha evolução com admiração e, quando já penso que encontrei um lugar onde posso ficar, alguma coisa muda.
E esmagam-me.
É uma imagem cruel, mas é assim que hoje me sinto. Como se fosse uva lançada para dentro de um lagar. Primeiro existe, tem forma, tem cor, parece conter qualquer coisa de valioso. Depois é apertada até ao limite, espremida, reduzida àquilo que resta.
E, no fim, nada se obtém.
Sou oco por dentro.
Talvez seja isso que mais me assusta. Não a Lina estar com alguém, nem sequer aquilo que o Manel viu. É a facilidade com que uma notícia destas consegue tocar num lugar que eu julgava já conhecer demasiado bem.
Hoje bastou tão pouco para voltar a sentir-me derrotado.
E fico a pensar se o problema está sempre nos outros ou se, no fundo, sou eu que nunca aprendi a permanecer inteiro quando alguma coisa começa a escapar-me.
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