Falar de amor

Terça-feira, 4 de Abril de 1978

Falo de amor porque é a arma que mais fundo atinge e o alvo é sempre o mesmo, o coração.

Talvez seja por isso que continuo a voltar à palavra. Não porque saiba exactamente o que ela significa, mas porque é difícil pensar na vida sem acabar por esbarrar nela.

Sou sensato e vejo que a vida é um jogo. Um jogo cujo mecanismo é difícil de entender e, talvez por isso mesmo, impossível de manobrar. Podemos conhecer algumas das regras, podemos tentar prever os movimentos, mas há sempre qualquer coisa que nos escapa.

O amor não passa de uma simples pedra nesse jogo. Uma pedra sensível à vibração de tudo o que acontece à sua volta. Parece pequena quando a olhamos de fora, mas basta tocá-la para percebermos que pode alterar toda a partida.

É uma pedra difícil de jogar e tão fácil de perder.

Os jogadores somos nós, todos aqueles que respiramos o mesmo ar, tantas vezes poluído pela maldade, pelo egoísmo e por aquilo que fazemos uns aos outros. Tentamos jogar bem, ou pelo menos convencer-nos de que sabemos jogar, mas nem sempre conseguimos.

O tabuleiro é a própria terra que um dia nos há-de cobrir quando já não estivermos aqui.

É um jogo difícil, talvez o mais difícil de todos. E, mesmo assim, todos tentamos jogá-lo. Não por sabermos como ganhar, mas porque continuamos à procura de uma coisa que parece impossível.

O amor.

Não creio que alguém o tenha realmente obtido. Talvez a morte.

E talvez seja essa a ironia de tudo isto. Passamos a vida a tentar encontrar aquilo que só conseguimos compreender quando já não podemos continuar a jogar.



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